ATAQUE DOS CÃES

ATAQUE DOS CÃES

janeiro 26, 2022 0 Por Cid Vasconcellos

Ataque dos Cães, filme dirigido e roteirizado por Jane Campion, é a grande aposta da Netflix para essa temporada de premiações que se encerra na noite do dia 27 de março de 2022 na cerimônia do Óscar. Muito embora a Netflix possua outros títulos que também estão na disputa pelos prêmios, como o excelente “A Filha Perdida” da diretora estreante Maggie Gyllenhaal, “Não Olhe Para Cima” de Adam McKay e “Tick, Tick…Boom” do, também, estreante Lin-Manuel Miranda, a verdade é que Ataque dos Cães tem se mostrado o longa com o maior potencial para esta temporada e, a cada nova premiação, tem se consolidado, até o momento, como o filme a ser batido.

Com uma direção impecável misturando planos abertos, que exploram tudo o que aquele ambiente natural – uma Montana radicada na Nova Zelândia – tem a oferecer, desde cores exuberantes dos amanheceres no céu, como também uma linda montanha com a imagem de um cão, e planos fechados que forçam os atores a darem o máximo de si para a concepção do drama daquela história, além de alguns planos detalhes que estão ali, como uma repetição de ideia, para que haja sentido em todo o caminho trilhado pelo filme, do início ao fim, Jane Campion impõe um nível muito alto ao filme e que é repetido por todos o seguimentos desta obra.

Ainda que o titulo original seja “The Power of Dog” – em uma tradução literal “O Poder do cão” –, desta vez a tradução do titulo da obra para o nosso idioma (Ataque dos Cães), captou, pelo menos para mim, a essência do filme. Campion, nesta que é uma obra adaptada do livro homônimo de Thomas Savage, consegue, realmente, descrever a crescente que se dá em um conflito entre dois animais.

Phil Burbank (Benedict Cumberbatch) e seu irmão George (Jesse Plemmons) tomam conta de um rancho. Phil é extremamente feliz com a vida que leva e está plenamente encaixado no que a vida lhe propôs. O mesmo não acontece para George, este é um homem calado e solitário, como bem fica claro na cena em que senta a cama, logo nos primeiros minutos do filme, e às suas costas há uma porta azul, na qual George está bem centralizado. A cor funciona como indicativo desse estado em que o personagem se encontra, ao mesmo tempo que o objeto, a porta, transmite que há algo do outro lado. E é ao encontrar Rose Gordon (Kirsten Dunst) que sua vida muda, bem como a de seu irmão também.

Ainda que não esteja claro no filme, Phil aparenta ser o irmão mais velho, e, de forma bem contundente, é o líder do rancho que, além de seu irmão, possui outros homens sob seu comando. Campion, em momento algum, desenha Phil como um homem que exercita seu poder através da violência propriamente dita. A sua imagem, sua imponência e toda a, consequente, idealização que os outros têm dele é o que lhe dá poder e, isto, é algo que a diretora faz questão de levar para a tela por quatro capítulos – o longa é dividido em capítulos (responsáveis pelas mudanças de tempo), tendo um total de cinco, sendo este último o mais longo. Em diversas cenas, mas não de forma cansativa, vemos Phil em ação esbanjando sua autoridade, sempre acompanhada de uma trilha sonora marcante, e regozijando-se por isso. É assim que vamos concebendo o crescimento desse personagem e entendendo como ele consegue ter tantos sob o seu comando.

Interessante notar que assim como acontece com os cães, de um modo geral, quando um novo individuo adentra o espaço, até então de domínio do “alfa”, há uma espécie de estudo preliminar, afinal é preciso saber quem é aquele “forasteiro”. É exatamente o que Phil faz quando sua família passa de dois (ele e seu irmão) para quatro. Há um estudo e depois há o ataque. Mas aqui, em uma forma bem poética, o duelo se faz através de notas musicais. Rose no piano e Phil no banjo. Uma cena linda com Phil – não Cumberbatch – esbanjando talento com seu instrumento e intimidando de uma vez por todas, a já encolhida, Rose.

Da mesma forma em que todo esse poder, advindo de um machismo irretocável, se manifesta, ele também desmorona quando o seu algoz oferece muito mais do que um simples abaixar de cabeça. É interessante como Campion desenha um Phil que, depois de algum tempo, enxerga Peter como um igual. E mais interessante ainda é como a diretora expõe certas “fragilidades” de Phil, intrinsicamente ligadas à figura de Bronco Henry, e exalta a força de Peter (Kodi Smit-McPhee). E esse movimento da diretora é, inclusive, captado dentro da própria narrativa quando é o personagem Phil que faz o primeiro movimento, no início do quinto e último capítulo, que é um aceno à observação do merecimento de Peter por seu respeito – algo que até esse momento não tinha sido visto na obra.

Como já disse, Campion dá a essa sua nova obra um processo de arredondamento que beira a perfeição. Não há arestas. A ideia iniciada nos primeiros minutos de filme é provada ao final. Os comportamentos dos personagens seguem a linha criada desde o começo. Não há reviravoltas que não façam sentido e muito menos soluções que pareçam apenas uma forma encontrada para aquela história terminar.

Mas se há algo, realmente, lindo nesse filme, são as atuações, sobretudo, as de Benedict Cumberbatch e Kodi Smit-McPhee. Ambos oferecem uma destreza para com seus personagens, que em um primeiro momento podem parecer absolutamente antagônicos, que impressiona. Desde o primeiro encontro deles na cena no Red Mill, onde Phil, seu irmão George, e seus homens jantam, é nítido que há ali muito mais do que o mostrado. E os atores, bem como seus personagens, não decepcionam. A cada novo embate, tudo fica ainda mais intenso, caminhando para um desfecho forte ao mesmo tempo que provido de muita sutileza, graças a câmera de Campion.

Não me parece uma aposta de risco que nomes como o de Jane Campion, Benedict Cumberbatch e Kodi Smit-McPhee sejam revelados muitas e muitas vezes daqui até a noite de cerimônia do Óscar.

Filme: The Power of the Dog (Ataque dos Cães)
Elenco: Benedict Cumberbatch, Kirsten Dunst, Jesse Plemons, Kodi Smit-McPhee, Frances Conroy, Keith Carradine, Thomasin McKenzie, Geneviève Lemon
Direção: Jane Campion
Roteiro: Jane Campion
Produção: Reino Unido, Canadá, Austrália e Nova Zelândia
Ano: 2021
Gênero: Drama
Sinopse: Um fazendeiro durão trava uma guerra de ameaças contra a nova esposa do irmão e seu filho adolescente, até que antigos segredos vêm à tona.
Classificação: 16 anos
Streaming: Netflix