DESERTO PARTICULAR

DESERTO PARTICULAR

dezembro 2, 2021 0 Por Cid Vasconcellos

Deserto Particular, como define o próprio Aly Muritiba, diretor baiano radicado em Curitiba, narra uma história de amor, de afeto e, isso, para os dias de hoje, sobretudo no Brasil, com um governo tão disposto a propagar o ódio, o preconceito e a violência, já é um motivo de muito orgulho para o Cinema Nacional.

Logo de início, Muritiba faz questão de apresentar a cidade de Curitiba e o faz através de uma corrida noturna e solitária do protagonista e, quando este pára, a imagem abre e as estações tubo (marca registrada da cidade) entram no quadro. A cidade fria, cinza e opaca é o reflexo da opressão, da violência e de uma vida sob a mão do conservadorismo que recai sobre Daniel (Antonio Saboia). Ainda que Muritiba o construa como uma folha de papel em branco, ao decidir não contar de imediato o motivo dele estar suspenso das suas atividades na Policia Militar, por outro lado é possível notar um filho extremamente dedicado ao pai, cuidando deste, um ex policial, de idade avançada, debilitado física e mentalmente. A cena do banho é o maior exemplo desse zelo. Mas, ao mesmo tempo, o diretor quer mostrar que aquela família está sob a égide do conservadorismo, sobretudo, àquele que flerta com a conduta militar. Essa ambiguidade do personagem lhe permite a empatia gerada pelo público, pois quando Muritiba decide contar o que Daniel havia feito, o espectador já está imerso na busca dele por Sara.

E nessa viagem, o inverso do que o próprio diretor fez em 2005, quando saiu da Bahia e foi para Curitiba, a cidade dá lugar a estrada, os prédios dão lugar aos casebres, o frio dá lugar ao calor, à secura e à aridez. As únicas coisas que acompanham o protagonista são os cabos de transmissão de energia elétrica. Seu destino, Sobradinho, cidade que possui uma Hidrelétrica/Represa.

Ao longo de toda a obra fica nítido o trabalho com vários contrastes. A ausência de som e as músicas com letras bem marcantes, a cidade fria que é Curitiba e Sobradinho que está localizada em pleno sertão baiano, o contido e o extravagante, Daniel e Sara. Entretanto essa dicotomia não se reserva a estabelecer apenas dois sentidos para as coisas, ela transborda e abre um leque de sentimentos e emoções.

A chegada de Daniel à Bahia, já é marcada pelo forte sol, pela presença marcante de luminosidade e por um povo diferente, irreverente e que emana calor. É com o ator Thomás Aquino e seu personagem Fernando que toda a personificação do nordestino se faz presente. Quando ele aparece, para se encontrar na balsa com Daniel – que está esperançoso em ter notícias de Sara –, ele não só preenche toda a cena, como sua desenvoltura é marcada, principalmente, por se tornar uma extensão do público, fazendo as perguntas certas para as respostas que o espectador deseja.

Se já é belo todo o carinho presente na fala de Daniel ao se referir a Sara, é ainda mais bela a cena do primeiro encontro deles na Boate Vibe. E outro ponto que vale ser destacado aqui é a variação de cores com direito a muito vermelho, a cor da paixão. E para salientar os sentimentos de Daniel, Muritiba, além das cores, usa também estrofes das músicas presentes no filme:

“Não quero acreditar, você deixou de me amar, eu não vou suportar o nosso fim.”

É após esta música que Daniel toma coragem e parte em direção a Sobradinho, e esta composição entre letra e o estado de espirito do protagonista vai se repetir várias vezes.

Muritiba não cansa de apresentar uma concepção muito aguçada sobre como o filme se desenvolve, os conflitos que existem e aqueles que irão ser apresentados mais à frente. Essa construção bem definida passa por uma qualidade, sobretudo, na coesão do filme. Quando Daniel e Sara se encontram em um bar e a câmera insiste em filmar Sara através de seu reflexo no espelho, mostra que Daniel ainda está sob o efeito de quem ele acha que Sara é e não em quem ela é de verdade. O que faz todo sentido, justamente, para a problemática que se segue na trama.

Entretanto é nessa ocasião que a canção “Total Eclipse of The Heart” toca pela primeira vez e quem conhece seus versos, torce por esse amor que existe entre eles.

Muritiba, em mais um exercício da sua altíssima qualidade enquanto autor, confere certos didatismos através de metáforas, na linguagem e no visual, sem soar enfadonho. Quando Sara conta para Daniel sobe a história de Sobradinho, ela está falando sobre ela:

“Sabia que Sobradinho, a Sobradinho de verdade, está escondida embaixo dessas águas, atrás desses muros.”

E se após essa cena, Daniel se mostra atordoado com todas as descobertas e se sentindo, equivocadamente, enganado, Sara se mostra forte e resiliente com mais essa pedrada que a vida lhe deu, e nada mais afinado com esse momento como a trilha sonora que a acompanha em seu caminho, sozinha, até em casa.

Outros pontos são trabalhados por Muritiba aqui, como o caso da cura gay tão alimentada pelas igrejas, sobretudo, a evangélica. Mas é algo que passa despercebido tamanha é a convicção que temos não só na personagem Sara como em quem a interpreta, Pedro Fasanaro. Convicção essa que Muritiba reforça em uma cena digna de um quadro e que possui muita profundidade. Sara leva Daniel até a Hidrelétrica/Represa e, suas posições no quadro, refletem justamente aquilo que são. Daniel um homem represado, reprimido. Sara, alguém sendo contida mas querendo a todo custo extravasar. Essa cena e tantas outras revelam o brilhantismo da fotografia do filme.

Deserto Particular se encerra com uma ode ao amor, à paixão e à lascívia. E não era esperado menos do que isso.

Deserto Particular é, sem dúvida, um dos melhores filmes do ano.

Filme: Deserto Particular
Elenco: Antonio Saboia, Pedro Fasanaro, Thomás Aquino, Zezita Matos, Luthero Almeida, Laila Garin, Cynthia Senek
Direção: Aly Muritiba
Roteiro: Aly Muritiba
Produção: Brasil, Portugal
Ano: 2021
Gênero: Brasil
Classificação: A definir
Streaming: Não disponível