CAPITU E O CAPÍTULO

CAPITU E O CAPÍTULO

outubro 18, 2021 0 Por Cid Vasconcellos

A literatura e o cinema, muito embora acabem se abraçando em diversos momentos de suas histórias, são artes distintas e precisam funcionar de forma independente mesmo quando um filme é baseado ou quando é uma obra adaptada de algum livro.

Capitu (1968) de Paulo Cesar Saraceni, Dom (2003) de Moacyr Góes e a mais recente obra do longevo cineasta brasileiro Júlio Bressane, Capitu e o Capítulo (2021) convergem quanto ao interesse numa das mais famosas obras de Machado de Assis, Dom Casmurro (1899). É bem verdade que o desenvolvimento narrativo deles, sobretudo o de Bressane, se dá de maneiras diferentes. E o que faz Capitu e o Capítulo ser o mais distinto dentre as três obras é esse olhar para fora da história que se passa entre Capitu e Bentinho. Há aqui um profundo interesse na estrutura criada por Machado de Assis quando, este, em seu livro Dom Casmurro, o dividiu em centenas de “capítulos”.

Essa quebra brusca de linearidade que se dá no livro, ainda que gere um certo desconforto quanto ao ritmo empregado, é facilmente revertida por causa de uma certa proximidade com o narrador. Mas para o cinema, ao menos neste filme, não funcionou. Mesmo tendo a figura do narrador e, sendo este, interpretado de forma muito enraizada no personagem, por Enrique Diaz, ainda assim, a cada nova pausa, nos afastamos mais daquele universo proposto por Bressane.

Fica evidente, desde os primeiros minutos, que a obra em questão se trata de uma releitura, uma reinterpretação da obra original e, sendo assim, não há qualquer tipo de questionamento a se fazer quanto as similitudes entre elas. Mas o caminho traçado não possui, em nenhum momento, a propriedade de cativar o espectador. Tanto seu ritmo, quanto as atuações um tanto quanto pálidas vão nos distanciando mais e mais.

Essa empreitada de Bressane junto com a Globo Filmes e, a tira colo, a escalação de atores como Mariana Ximenes (Capitu) e Vladimir Brichta (Bentinho) não deu liga. Ainda que se possa dizer que o cinema de Bressane é exatamente assim, de uma deglutição difícil, as atuações de Ximenes e Brichta foram além (em um sentido negativo) e acabaram de vez com qualquer chance de saborear o filme. Salvo raríssimas exceções de ambos a monotonia é quem deu o ritmo de suas cenas.

Mesmo assim houve espaço para a composição destes dois personagens utilizando não só o comportamental como outros elementos presentes em cena como quando Bentinho está a colocar veneno em um copo de chá e o arranjo a sua frente possui flores completamente murchas, refletindo assim o estado de espirito daquele pobre rapaz que já não tem certeza da fidelidade de sua, até então, amada esposa, Capitu. Tal aceno a esta forma de contar as emoções dos personagens não fica só com o uso de alguns objetos. Os sons e as cores também contribuem de forma a completar as mensagens.

Com um tempo curto para desenvolver toda a história, Bressane abusa das elipses e omite informações que são necessárias para o bom entendimento da trama. Pois mesmo com diferenças da obra original, os conflitos, em sua grande maioria, são os mesmos. Então para aqueles que não conhecem Dom Casmurro, este longa se tornará uma experiência ainda mais difícil.

No entanto, como uma forma de compensar essa limitação, Bressane usa os diálogos para não só complementar a história como consolidar a sua nova versão. Se na obra original vemos um Bentinho ciumento desde ainda jovem com Capitu, aqui isso se perde um pouco por conta da falta que faz as suas divagações. Em contrapartida Bressane incorpora um amor diferente entre Bentinho e Escobar que, para Machado de Assis, era puramente fraterno, mas que aqui, em uma fala de Capitu fica claro que há algo mais.

“Na cama eu me virava de costas, eu me tornava Escobar para você!”

Mas apesar de pontos como este que subvertem e nos fazem encarar uma nova realidade, faltou-lhe muito para que essa proposta ousada e corajosa tomasse uma forma mais prazerosa ao espectador. Um elenco enxuto, mas como nomes já conhecidos, não foi suficiente para alavancar a obra.

Mesmo assim, pontos marcantes da filmografia de Bressane não ficaram de fora deste seu mais novo projeto. A câmera quase que estática, contando com poucos movimentos horizontais, e o tempo reservado para cada cena são amostras da total confiança do diretor com tudo o que rege cada cena. Assim como em outros filmes dele, aqui, ao fim do filme, somos levados a uma espécie de filme sobre o filme. Temos, assim, alguns momentos de bisbilhotagem dos bastidores e, com isso, vemos a forma acurada com a qual Bressane lida com tudo e todos.

O cinema de Bressane é autoral e, sendo ele, um dos nomes mais importantes do movimento do cinema brasileiro, o cinema marginal, é de se esperar que seus filmes, de algum modo, incomodem. Seja pela forma ou pelo conteúdo. Basta saber se em pleno 2021 com um publico cada vez mais acomodado e na expectativa de tudo mastigado, filmes como esse se tornam acessíveis. Eu aqui já faço a mea-culpa e afirmo que é nítido que para apreciar o cinema de Bressane é preciso muito mais bagagem.

Filme: Capitu e o Capítulo – 2021
Elenco: Mariana Ximenes, Vladimir Brichta, Enrique Diaz, Djin Sganzerla, Saulo Rodrigues, Cláudio Mendes
Direção: Júlio Bressane
Roteiro: Júlio Bressane e Rosa Dias
Produção: Brasil
Gênero: Drama