M-8: QUANDO A MORTE SOCORRE A VIDA

M-8: QUANDO A MORTE SOCORRE A VIDA

julho 26, 2021 0 Por Cid Vasconcellos

Filme: M-8: Quando a Morte Socorre a Vida (2019)
Elenco: Juan Paiva, Raphael Logam, Mariana Nunes, Zezé Mota, Ailton Graça, Giulia Gayoso
Direção: Jeferson De
Roteiro: Jeferson De, Felipe Sholl, Laura Malin, Paulo Lins, Cristiane Arenas, Iafa Britz, Carolina Castro
Produção: Brasil
Gênero: Drama
Classificação: 14 anos
Streaming: Netflix

Na cinematografia brasileira o racismo é um tema recorrente e fortemente debatido. Dados do IBGE, de 2020, nos mostram que 54% da população brasileira é negra. Ninguém precisa ser bom em matemática para saber que isso representa a maioria. Mas essa maioria está refletida onde?

Jeferson De, diretor já consolidado, tem em seu currículo filmes como Broder (2010), o mais premiado de sua carreira e O Amuleto (2015) que se mostra muito mais como um experimento pessoal do diretor, do que uma obra que se estabeleça de alguma forma em sua filmografia. Mas além dos filmes ele também é o autor de um manifesto chamado DOGMA FEIJOADA, que consistia, de forma bem resumida, em estabelecer uma verdadeira representatividade negra no cinema brasileiro.

M8: Quando a Morte Socorre a Vida é um belo exemplo de como fazer um filme sobre o Brasil com a cara do Brasil. Jeferson De escancara suas críticas, já abertas, à uma sociedade com o racismo enraizado. Discute sobre o racismo estrutural, o velado e aquele que já não tem medo de aparecer, pois reconhece, nos governantes e nos poderes do estado, seus pares, portanto não há mais o que temer. Entretanto é com este último que o filme derrapa, principalmente, na sua autenticidade. O ponto mais frágil do filme é o personagem Gustavo (Fábio Beltrão), que desde o início, sem qualquer cerimônia, faz questão de demonstrar todo o seu preconceito, mas que não é colocado em momento algum em uma posição que o faça desenvolver o seu jeito de ser. As provocações feitas com o protagonista Mauricio (Juan Paiva) são soltas e a impressão que fica, justamente, por não ter uma sequência, seja no embate de ideias ou até mesmo em retaliações, é que estão ali apenas para pontuar um comportamento comum, o que não deixa de ser, mas que na obra se torna superficial demais.

Por outro lado, Mauricio é um personagem extremamente interessante e importante, pois mesmo que o seu contraponto não exista de uma forma contundente, ele consegue, mesmo sem esse antagonismo, demonstrar a realidade de uma pessoa negra em nosso país. É no acompanhar de seus passos que adentramos em sua religiosidade. É no vestir o jaleco que percebemos junto com ele um sistema incansável na missão de fazer com que aquele espaço seja ocupado, somente, por brancos.

Até nas coisas mais banais, Jeferson De amplia a nossa visão para que enxerguemos que quando Mauricio pega um ônibus e seus colegas de classe dirigem SUV’s importadas está ali, impregnada, a história de um povo condenado durante anos.

Mas é quando Mauricio se dá conta de seu papel, quando ele começa a se enxergar naqueles corpos sem vida, pretos, utilizados para estudos na faculdade de medicina, majoritariamente composta por pessoas brancas, que ele se vê em um mundo que não o quer ali. Ele passa a se sentir mutilado do mesmo modo que aqueles corpos, considerados indigentes, são. Percebe que sua vida está sempre nas mãos de uma sociedade branca e opressora.

Jeferson De trabalha muito bem na caracterização dos núcleos presentes na obra e pelos quais acompanhamos o personagem Mauricio. O hospital, a casa dos amigos e na favela onde mora com sua Mãe, Cida (Mariana Nunes). Impressiona como o diretor não precisa de um cinema expositivo para nos informar diversas coisas que estão naquele universo. E um dos maiores símbolos disso é a ausência do pai de Mauricio neste drama. Uma realidade triste do nosso país e que abordei um pouco no meu último texto sobre o filme Paternidade.

A relação de mãe e filho, ainda que não seja o foco da história, é recheada de bons momentos como a inserção da religiosidade deles que nos coloca em duas ou três cenas em um terreiro com um proposito muito bem definido para a trama, que é o abrir dos olhos de Mauricio para suas origens. Mas na cena do pequeno overacting de Mariana Nunes, do início ao fim, conseguimos ver uma verdade em tudo o que a personagem Cida fala e a atuação dela tem o poder de nos fazer enxergar muito além do que é falado. Em nosso país ser mulher e negra representa mais pobreza, desrespeito e vulnerabilidade. E nesta cena toda essa verdade é revelada através da emoção da personagem.

O longa possui esse ponto alto, entretanto ele assume um ritmo bem regular. Sem grandes reviravoltas e nesse sentido até peca, quando prefere ir pelo senso comum ou até mesmo quando decide entregar ao espectador problemáticas de fácil solução como é o caso do desenvolvimento da relação de Mauricio com Suzana (Giulia Gayoso).

Como citei anteriormente M8 consegue, não tão profundamente, mas de forma satisfatória, construir reflexões acerca do racismo estrutural que vem justamente desenhado na personagem Suzana, quando a mesma reproduz, inconsciente ou não, atos ou pensamentos preconceituosos. Entretanto esta é a única personagem que está desse lado da história e que consegue de certa forma se impactar e refletir sobre a vida que sempre levou e de toda a estrutura concebida sobre a sociedade ao seu redor. Já o personagem Gustavo, mesmo servindo como um expoente, na trama, do racismo, não consegue, sequer, causar alguma reverberação mais profunda. Pois além de soar forçado, suas cenas são picotadas gerando, assim, uma falta de coesão para o filme. Por ultimo temos o personagem Professor Djalma (Henri Pagnoncelli), que em uma posição de poder dentro da faculdade, que mostra que ele não é só um professor, consegue adotar uma postura de equidade nos tratamentos para com seus alunos, mas que em determinado momento recua por, justamente, corroborar com todo aquele sistema que perpetua o preconceito.

M8: Quando a Morte Socorre a Vida é um filme de muita força, contado de forma simples. Para alguns isto pode soar como um demérito, mas considero como uma forma de promover a acessibilidade a essa história. Jeferson De mescla diálogos que traduzem o que os personagens estão sentindo com imagens que complementam o significado deste filme. E um grande exemplo disso é a imagem de Marielle, reafirmando sua presença.

Em um mundo que tenta a todo custo reforçar a ideia de diferenças, sobretudo, na falsa importância do homem branco, deixo o seguinte verso retirado da musica “Que Bloco é esse?” do Ilê Aiyê:

“Branco se você soubesse o valor que o preto tem, tú tomavas banho de piche pra ficar negrão também”.