Critica: O mapa das pequenas coisas perfeitas

Critica: O mapa das pequenas coisas perfeitas

julho 14, 2021 0 Por Gabriel Figueiredo

Há muito tempo não assistia a um filme de comédia romântica, me apoiando na justificativa de que os roteiros estavam repetitivos e voltados a um público que já não faço parte a bastante tempo: os adolescentes. Mas dai vem a pandemia, e com ela a oportunidade de poder explorar com mais carinho estilos de cinema deixados de lado. Assim, O mapa das pequenas coisas perfeitas foi a porta de entrada para revisitar o romance no cinema.

Confesso que fui fisgado pelo título, que já entrega o conceito central da trama. Aqui, em um clássico dia da marmota, os protagonistas estão presos em um loop temporal sem uma justificativa plausível para isso. E através e durante ele, vão se descobrindo e se desvelando até o romance inevitável acontecer. Tudo muito previsível, como manda o manual das comédias românticas. Porem, se a trama se mostra óbvia e com tons de adolescência – o que não tem nada de errado -, as reflexões colocam os dois pés na vida adulta.

Obrigados a viver o mesmo dia, são, consequentemente, obrigados a também refletir sobre si e sobre sua própria existência. No começo tudo parece maravilhoso, podendo aproveitar cada aspecto da vida naquela cidade, o hedonismo em sua essência, até que as possibilidades vão acabando e tudo se transforma em um grande tédio, no qual a repetição se mostra o verdadeiro inferno. E aí, o que resta, é olhar para o outro, para fora, e tentar ver o prazer além do próprio ego e da própria forma de existir. Há outras vivencias e histórias além da sua. Então, porque não fazer um mapa onde coisas legais estão acontecendo?

Como consequência, os protagonistas vão se desapegando de suas idiossincrasias, que são justamente o que lhes prendem naquele fatídico dia. Enquanto ela tenta superar e entender que a morte da mãe é um caminho sem volta, ele tenta se ajustar a família, dando uma atenção maior as coisas de casa e melhorando seu relacionamento com seus parentes. Uma ilustração psicanalítica da repetição e da elaboração. Roudinesco, em uma leitura de Lacan diz que a repetição inconsciente nunca é uma repetição no sentido habitual de reprodução do idêntico: a repetição é o movimento, ou melhor, a pulsação que subjaz à busca de um objeto, de uma coisa (das Ding) sempre situada além desta ou daquela coisa particular e, por isso mesmo, impossível de atingir. Talvez, o dia tenha acabado, mas a busca e o romance como produto dela não.

O roteiro é longe de ser perfeito e tem vícios que me entristecem toda vez que me deparo: A insistência em colocar “referencias a cultura pop” se mostra inútil dentro dele, mesmo que seja para ilustrar algo mais descolado e jovem; O amigo negro do protagonista que só serve como escada para alivio cômico e ponte para justificativas desnecessárias sobre a trama. Ou seja, um roteiro que funciona para a classe média branca norte americana que é justamente a maior parte do publico alvo das plataformas de streamings em épocas pandêmicas.

No final das contas, é um filme que não faz questão de fugir dos clichês de gênero, mas acaba, por acidente, entregando reflexões que valem a pena o risco. Eu indicaria para ser visto caso você esteja procurando algo extremamente despretensioso em um domingo cheio de tédio.