CRUELLA

CRUELLA

junho 28, 2021 0 Por Cid Vasconcellos

Filme: Cruella (2021)
Elenco: Emma Stone, Emma Thompson, Joel Fry, Paul Walter Hauser, Emily Beecham, Mark Strong
Direção: Craig Gillespie
Roteiro: Dana Fox, Tony McNamara, Aline Brosh McKenna, Kelly Marcel, Steve Zissis, Dodie Smith
Gênero: Comédia, Drama – Classificação: 12
Streaming: Disney +

O momento é de ressignificação dos vilões. Malévola (2014 e 2019) e Joker (2019) já anunciavam que um movimento nesse sentido iria se fortalecer. A Bela Adormecida (Disney) e Batman (DC) já fazem sucesso por si só, mas com a possível saturação da história, por ter sido representada tantas vezes nos cinemas, em séries e desenhos, alguém teve a ideia de explorar as histórias dos vilões. E foi assim que em 2014 a Disney lançou o filme Malévola, a bruxa má do clássico A Bela Adormecida. Em se tratando de filmes da Disney era óbvio que, mesmo se tratando de um filme da vilã, o aspecto maligno seria reduzido ou até mesmo dissipado para que a obra permanecesse acessível ao seu publico alvo, o infanto-juvenil.

Joker, por sua vez, correu em uma outra categoria, sendo lançado inclusive com uma classificação de +18. Um filme mais sombrio, com muita violência, fazendo jus ao que de fato é o personagem. O sucesso foi imediato. O filme esteve em todas as discussões sobre cinema no seu ano de estréia e, de forma coerente e justa, Joaquin Phoenix ganhou todas as premiações de melhor ator que concorreu.

Cruella é a bola da vez. Personagem icônica do livro Os 101 Dálmatas escrito por Dodie Smith em 1956. Esta personagem apareceu nos filmes que a Disney produziu em 1961 (animação), em 1996 (101 Dálmatas, O Filme) e 2000 (102 Dálmatas). Nestas duas últimas obras a atriz que interpretou a vilã, que se tratava apenas de uma antagonista em ambos os filmes, foi Glenn Close.

Outras tantas personagens já tiveram suas criações respaldas e referenciadas pela Cruella, como é o caso da personagem Miranda em O Diabo Veste Prada, ou seja Cruella é uma personagem que faz sucesso e vende e assim, esse novo projeto já nasceu sabendo que o fracasso passaria longe e, por isso mesmo, a continuação, Cruella 2, já estava em fase de pré produção antes mesmo do filme inicial ser lançado.

Nesta obra de 2021, dirigida pelo diretor Craig Gillespie (Eu, Tonya), a proposta é a de tentar abraçar todas as idades possíveis. Há uma clara tentativa de criar um universo mais sombrio, saindo um pouco da leveza que é uma característica dos filmes da Disney, e o mérito está em conseguir um equilíbrio entre desenvolver a história de uma vilã em uma tentativa de ressignificar às suas condutas do futuro ao mesmo tempo que sugere para o espectador que existe um potencial de maldade ali. O filme é expositivo nos atos praticados por Cruella, mas existe, também, uma romanceada em tudo o que acompanhamos durante este longa em relação às justificativas para aquele comportamento da protagonista.

Emma Stone nos presenteia com uma bela atuação, performática até certo ponto, e consegue trabalhar as nuances, sobretudo a dicotomia que existe em sua personagem (a começar pela cor de seu cabelo). Ainda no inicio do filme fica claro a sua luta interna em se mostrar como realmente é ou se esconder para ser aceita pela sociedade (Cruella/Estella). Essa sua anulação se dá justamente pelo tingimento de seu cabelo para apenas um tom, o ruivo, já na fase adulta. Quando ela se desfaz daquilo que a torna única, dá-se início ao momento de inércia em sua vida. Uma espécie de piloto automático que não a deixa feliz e sim apática. É apenas ao fim do 1° ato, após duas revelações que se complementam, que veremos ela se colocando no comando da sua própria vida. Principalmente por tirar de si uma culpa que carregava por longos anos.

Um grande problema nesta obra é a existência de duas vilãs. A protagonista Cruella não chega a ser ofuscada, mas, ao dividir tempo de tela com alguém igual ou pior como é o caso da personagem Baronesa, interpretada pela Emma Thompson, se vê impossibilitada de alcançar a exposição que era esperada por ser, justamente, a personagem título. Esse duelo entre elas também prejudica o desenvolvimento da Baronesa, já que esta não consegue impor uma marca forte, algo necessário para servir, até, de justificativa, ou pelo menos, encorpar as motivações dadas para todo o processo de vingança, que é justamente do que se trata este filme, como bem é dito pela narração no início da obra pela própria Cruella.

Outro ponto que não ajuda o desenvolvimento dessas duas personagens é o roteiro. Com pelo menos 5 pessoas trabalhando neste elemento do filme, fica evidenciado o excesso de informação, principalmente no 2° ato do filme. O início, que até se estende um pouco mais do que o habitual, serve para vermos o passado, a infância de Estella/Cruella e assim sabermos quais suas dores, seus traumas e seus fardos. Uma vez isso estabelecido entramos na transição do primeiro para o segundo ato que nos dá as informações necessárias para o que viria a ser desenvolvido no filme. Mas a questão é que apesar dos muitos detalhes como figurinos, trilha sonora, referências aos outros filmes e à obra original, a verdade é que a experiencia se torna maçante, sobretudo quando há uma repetição cansativa de cenários como a fonte e a fábrica da baronesa. Esta última concebida com um tom de verde presente nas suas estruturas, que nos dá a mensagem sobre a natureza da Baronesa, mas que o ato de visualizar repetidamente este cenário acaba cansando o espectador.

Já concepção do filme enquanto tempo e espaço é muito bem feita. O trabalho feito para retratar uma Londres de 1970, bem como inserir a moda e o punk, algo muito forte naquela época, tendo este momento de pura efervescência cultural recebido a alcunha de “Swinging London”, consegue elevar esta obra e, assim como as atuações de Emma Stone e Emma Thompson, é outro grande destaque do filme. Entretanto fica difícil entender o total descaso com os efeitos visuais presentes aqui. Desde os dálmatas que soam, em todos os momentos, artificiais, às cenas que poderiam ter sido retiradas pois o entendimento daqueles momentos não se perderia por causa disso.

Mas o que há de melhor aqui é o fato de que neste filme o protagonismo feminino é forte e muito bem colocado. Os personagens masculinos são todos coadjuvantes e tirando o personagem John (Mark Strong) que tem papel fundamental para o desfecho do filme, todos os outros são praticamente enfeites e servem apenas como válvulas de escape seja para o humor ou para dar andamento à trama.

Cruella fez muito barulho e sua estreia nos cinemas foi a melhor possível, chegando a ficar no topo da bilheteria nacional. Cruella 2 segue na fase de pré-produção e, por enquanto, conta com o mesmo diretor e, pelo menos, uma das roteiristas está mantida. Pela cena pós crédito sabemos que a história a seguir pode ser aquela que já conhecemos, então nos resta esperar para saber se, neste próximo filme, Cruella realmente será cruel.