Colectiv é um documentário, de produção romena, de 2019 com direção do Alexander Nanau e que está concorrendo ao Óscar 2021 nas categorias de Melhor Documentário e Melhor Filme Internacional.

Mas o que este filme tem a ver com o incêndio em Santa Maria, na Boate Kiss e com o Brasil? Bom, já explico. Colectiv era uma casa de shows em Bucareste (Capital da Romênia) que pegou fogo, no dia 30 de outubro de 2015, em plena apresentação, pirotécnica, de uma banda de Metalcore, a Goodbye to Gravity, com mais de 200 pessoas em um local fechado e sem qualquer tipo de preocupação com a segurança destas pessoas que frequentavam a discoteca.

O desastre estava anunciado.

Logo a comparação com que o aconteceu na Boate Kiss, em Santa Maria, Rio Grande do Sul é imediata e se este documentário já nos comove por si só, essa relação direta com a tragédia brasileira consegue apertar ainda mais essa nossa ferida.

É sabido, porém, que de lá para cá, pouca coisa se alterou em relação às fiscalizações desses espaços destinados a shows. É muito claro que ainda não damos a devida importância a este item e que, por uma questão de sorte, outras tantas casas de eventos ainda não tiveram o mesmo fim da boate Kiss.

Ambas, Colectiv e Kiss, eram tragédias anunciadas. Nos dois casos a omissão dos órgãos regulatórios e de fiscalização foram determinantes para o ocorrido. Aqui no Brasil foram 242 mortes e 680 pessoas feridas no incêndio da Boate Kiss no dia 27 de janeiro de 2013. Na Colectiv foi um número menor. Em um primeiro momento foram notificadas 27 vitimais fatais, mas aqueles feridos, gravemente ou não, foram levados a diversos hospitais e, pouco a pouco, muitos foram perdendo suas vidas. Não por conta dos ferimentos causados pelo incêndio e sim por causa de infecções hospitalares. E o elemento propulsor destas infecções eram os desinfetantes que eram diluídos, ainda em fábrica, e vendidos aos hospitais.

Um grande escândalo envolvendo políticos, empresários e médicos foi sendo revelado a partir do ocorrido em Colectiv. Alexander Nanau não se furta de utilizar imagens que irão chocar a todos. Vídeos gravados por pessoas dentro da discoteca Colectiv ou até mesmo larvas nas feridas abertas e sem tratamento de pacientes nos hospitais da Romênia.

O nosso sentimento ao avançar cada minuto deste filme está em constante conflito. As vezes queremos chorar, compadecendo das dores dos familiares que perderam entes queridos, as vezes o choro vem por ver os sobreviventes tendo que se adequarem aos seus corpos mutilados. E outras tantas vezes sentimos raiva ao ver as caras desonestas e indiferentes dos políticos e daqueles que de uma forma ou de outra contribuíram para o caos da saúde da Romênia. Através de um episódio, o incêndio na Colectiv, percebemos que o problema é mais grave e muito mais extenso. Corrupção, lavagem de dinheiro, tráfico de influência, superfaturamento, opressão e aí está a relação com o que vivemos em nosso país.

O incêndio, os mortos, os feridos, tudo isto nos comove, nos pega desprevenido com a realidade estampada nos rostos de quem passou por tudo aquilo. Mas a sujeira da política romena, essa não nos causa nenhum espanto. Estamos tão acostumados com isso ocorrendo em nosso país e não precisamos ir muito longe na memória para percebermos isso, é só pegar do início da pandemia até hoje e contar quantos ministros da saúde já tivemos. Ou contar a quantidade de mortos que tivemos por falta de oxigênio, sobretudo em Manaus. E contar a quantidade de vezes que o “presidente” do nosso país usou do deboche para falar sobre os mortos e sobre a pandemia no Brasil.

Romênia e Brasil tão distantes geograficamente, mas tão próximos na política empregada, desigual, desonesta e desumana.

No entanto é interessante e nos dá até uma pitada de esperança quando vemos o jornalismo sendo usado de forma responsável e acima de tudo, tratado com o máximo respeito. Curioso que, no caso da Colectiv e de todos os seus desdobramentos, tenha sido um jornal esportivo que tenha assumido o protagonismo e não se deixou abalar, com as diversas ameaças e tentativas de diminuição por segmentos que estavam envolvidos até o pescoço com tudo o que ocorria no país.

Há uma beleza em ver toda a pressa que existia dentro daquela redação do “Gazeta Sporturilor” para que as notícias saíssem logo e, assim, as repostas, bem como a mobilização da sociedade e daqueles que estavam a frente do governo, se ebulissem. Catalin Tolontan, Mirela Neag e Razvan Lutak, principalmente os dois primeiros, assumem logo de início o protagonismo nas ações em busca de completar um quadro que parecia ter muitas peças faltando. Os olhares incrédulos diante de cada descoberta nos fazem reviver o nosso dia a dia desde que o novo presidente escolhido nas eleições de 2018 tomou posse aqui no Brasil.

Em determinado momento, a câmera de Nanau decide se aprofundar um pouco mais e passa a acompanhar, também, o novo ministro da saúde, Vlad Voiculescu, e assim começamos a ter ciência de toda a lama que existe nesta instituição, um sistema corrupto e de forma generalizada. Ao mesmo tempo que, assim como ele, vamos nos surpreendendo com cada denuncia, não é o bastante para conseguirmos simpatizar com Voiculescu, pelo menos não em um primeiro momento. Pois a sua inércia inicial e a sua descredibilidade dada às primeiras denúncias, nos colocam de novo a pensar em nosso país, mais precisamente quando o atual presidente da Caixa Econômica Federal, Pedro Guimarães, em uma solenidade em comemoração ao Dia Internacional da Pessoa com Deficiência, falou em pleno 2020, conforme matéria da Época e de tantos outros veículos, com um tom de espanto sobre a sua nova descoberta:

“Há três semanas nós visitamos alguns lixões. E o que a gente viu é algo que eu nunca tinha pensado que existisse. Pessoas morando nos lixões, e vivendo no chorume…”.

Não há como não conceber a ideia de que existem dois mundos em ambos os países. Aquele do cidadão que luta diariamente para conseguir um prato de comida, e outro dos afortunados, que sentados nos seus montes de dinheiro, não conseguem enxergar nada além das suas próprias posses.

Há um lado humano em Colectiv que se distancia desse ar jornalístico e de denúncia e passa a acompanhar, por algumas cenas, a sobrevivente do incêndio, Tedy Ursuleanu. Nesses momentos, no ensaio fotográfico, no teste das próteses de mãos e na inauguração da exposição com suas fotos, tendo essa sequência em mente, ficamos a pensar em como, na dificuldade, certas pessoas possuem extrema confiança e determinação. Em um certo momento Ursuleanu é indagada:

“Guarda ressentimentos pelo que aconteceu? – Não, sou incapaz de guardar ressentimentos.”

“Onde você encontra forças para seguir em frente, quando você olha no espelho e sabe que alguém é culpado, e que você não merecia isso? – Não tenho escolha.”

 As suas respostas chocam. Chocam até mesmo a jornalista que fez as perguntas, pois ainda em tom de espanto, antes do corte dessa cena é possível ouvir “Não pode ser tão simples.”.

Ursuleanu precisa viver assim. Pois é o único caminho para seguir em frente.

Outra personagem importante aqui é a Drª Camelia Roiu, que tem papel fundamental no reforço da denúncia, já que é alguém de dentro e possui informações privilegiadas, além das próprias experiências, o que resulta em uma completa decepção com seus pares. Como é bom ver 3 mulheres (Mirela Neag, Tedy Ursuleanu e Camelia Roiu) neste documentário sendo exemplos de força, moral, ética e determinação.

A Drª Roiu é uma peça chave, pois, como vemos, ela está em completa exaustão por causa de uma burocracia conivente com toda a crise no sistema de saúde da Romênia. Sem muitas opções, expõe para Mirela Neag e Razvan Lutak, com direito a vídeos de pacientes, toda a situação caótica que existe nos hospitais. E, retornando à falta de empatia que temos por Voiculescu, uma outra passagem sua demonstra o motivo dele não ser agraciado pelo apoio do espectador. Em uma reunião com a Drª Roiu, após o vídeo ter sido exposto pela equipe de Tolontan, tenta, apesar das palavras calmas, culpabiliza-la por esta ação “precipitada”. Mas o diálogo segue, e entendemos perfeitamente os motivos que a levaram a fazer isso, e a cena se encerra com um curto diálogo porem cheio de significados, com o ministro perguntando e em seguida a Drª Roiu respondendo:

“Como tudo isso pode ser resolvido? Como os hospitais ficaram tão ruins? – Como diz a minha mãe, não somos mais humanos. Nós, médicos, não somos mais seres humanos. Só nos importamos com dinheiro.”.

Colectiv tem um poder de ser muito claro em tudo que, de forma ousada eu diria, expõe. Sua denuncia é clara. Não se trata de um problema em relação a uma discoteca, um hospital, um diretor de hospital ou a uma empresa de desinfetantes. Colectiv fala de forma muito dolorida sobre os problemas graves de um país. Problemas em um sistema de saúde movido por fraudes e total descaso com aqueles que precisam de qualquer tipo de assistência, inclusive às mais básicas. Colectiv não é só um retrato da Romênia, mas do Brasil também

O choro final de uma família romena, pela perda de um filho, irmão e neto, é o choro de mais de 386 mil famílias aqui em nosso país ao longo deste último ano. Colectiv está aí para isso, para não nos deixar esquecer quem são os culpados.

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