Malcolm & Marie

Malcolm & Marie

fevereiro 21, 2021 0 Por Cid Vasconcellos

O que poderia surgir de duas personalidades em ascensão – Zendaya e John David Washington – com a possibilidade de produzir um filme durante a pandemia?

Esta foi a fórmula que a Netflix criou e com a qual nos presenteou em um dos seus mais novos filmes de 2021, Malcolm & Marie. Contrariando boa parte da crítica, eu considero esta obra um presente, pois gosto das atuações, acho o roteiro muito perspicaz e o desenvolvimento da trama faz com que experimentemos uma montanha-russa de emoções. Ora nos padecemos por Malcolm, ora torcemos por Marie. A verdade é que para este filme, que se utiliza tão bem da metalinguagem, é necessário enxergar além do que está na superfície.

Sam Levinson que, aqui, assina o roteiro e dirige – já havia feito o mesmo na série Euphoria, na qual trabalhou com a atriz Zendaya -, traz algo bem diferente da sua obra da HBO. Se em Euphoria ele tem um universo de temas e personagens para explorar, em Malcolm & Marie ele define uma narrativa bem mais intimista, mas, ainda assim, consegue criar vários planos de fundo, deixando o espectador a vontade para aquilo que queira absorver.

Rodado todo em preto e branco, pode gerar um desconforto em boa parte do público, já que o uso deste artificio pode, por vezes, ser taxado como sem propósito. Sam Levinson sabe disso, mas se formos atentos ao texto presente no filme, percebemos que nada aqui é feito de forma desleixada ou sem algo que a justifique. Além disso eu acredito que a ausência de cores contribui para o mundo apresentado e nos deixa preso ao que de fato interessa nesta obra, que é o foco completo em Malcolm e Marie e no que eles têm para nos contar.

Ambientado em uma casa de arquitetura moderna, há um refinamento em tudo o que vemos. Seja na composição de todos os cenários, nos movimentos dos personagens e nos caminhos que a câmera faz nos closes e nos planos abertos. A casa, como sendo praticamente o único ambiente em toda a trama, é explorada em seus vários cômodos, e esta escolha, completamente acertada, dá uma dinamicidade ao longa que, com seus 106 minutos de duração, ficaria maçante se não houvesse essa modificação de cenário bem como a quebra de clima para cada novo ambiente apresentado.

A definição literal para este longa, e fazendo sem muitos rodeios, é uma briga de casal que dura uma noite inteira. E tudo começa quando voltam da estreia do filme dirigido por Malcolm. À primeira vista a motivação da briga parece boba e, talvez, a intenção seja justamente esta, criar uma fagulha e alimenta-la para, ao fim, percebermos que, apesar de se demonstrar frágil, a criação da problemática se revelaria apenas como o ponto de partida para crises bem maiores em uma discussão.

O ponto inicial de desequilíbrio deste relacionamento traz ambos os personagens em busca de reconhecimento. Malcolm, ainda que resista, espera isso dos críticos e Marie é clara em sua indignação quanto ao total esquecimento de Malcolm em seus agradecimentos.

Mas engana-se quem pensa que o filme passará o tempo inteiro reforçando apenas “mais uma” discussão de um casal. Há camadas mais profundas e que não são tão difíceis de descobrir. Malcolm apesar de flertar com uma certa arrogância, característica que talvez seja necessária ele ter justamente pelo mundo em que está inserido, possui na verdade uma falsa estabilidade emocional. Necessita que seja repetido várias vezes que ele é bom e que seu trabalho também o é. Enquanto que Marie, no início do filme, aparenta ser uma jovem que necessita de atenção, mas na verdade possui marcas mais profundas, enraizadas no vicio de drogas do passado, e que agora se vê presa em uma relação emocionalmente abusiva.

Por muito tempo o longa trabalha essas características iniciais de ambos os personagens. Quase que a conta gotas vamos percebendo a real construção das personalidades de cada um. Mas tudo isso é feito sinuosamente para não termos o quadro completo antes do tempo.

O caráter abusivo da relação, que parte, obviamente, de Malcolm, tem muito a ver com o status e com o que ele, intencionalmente, projeta a Marie, mas que não necessariamente é real. Em vários trechos é possível notar o desprezo que ele tem por quem de fato é Marie. Aparentemente é o lado sexual e as benesses que tem neste relacionamento, como por exemplo um macarrão com queijo feito durante a briga entre eles, que o faz se monitorar para entregar carinho e afeto de vez em quando. Mas nunca paramos de perceber como, para ele, o universo gira em torno de seu próprio umbigo.

Marie é uma ex viciada em drogas – parece até a versão adulta da personagem Rue Bennett (Euphoria) -, que encontra a sobriedade nesse relacionamento. Mas algo tão comum é a substituição da dependência. E não há como não perceber a violência daquela relação quando nos deparamos com os insultos proferidos por ambos, mas que na voz e no tom de Malcolm são verdadeiros socos.

A trilha sonora tem papel fundamental na marcação do filme e em como os ânimos se encontram em cada cena em que determinada música está presente. Não há como não nos empolgarmos na dança de David Washington, ao som de James Brown, demonstrando toda sua euforia ao chegar em casa. Como também sentimos o clima pesar quando, após uma rápida reconciliação, ainda nos primeiros 30 minutos de filme, a música I Forgot to be Your Love entra com a função de “rebobinar” as emoções, sobretudo a de Marie, que se vê novamente diminuída, fragilizada e encurralada por Malcolm.

Mas é quando cada música cessa que o longa ganha poder. Os monólogos feitos por David Washington e Zendaya são afiados, profundos e certeiros. Claro que o que é falado também vai ganhando profundidade com o tempo passado de filme. Logo é ao final que temos o conjunto do que foi pensado e sentido durante todo o embate noturno.

As atuações são maravilhosas e pensadas para prêmios. Mas se eu tivesse que escolher apenas uma, eu ficaria com o que John David Washington entrega em Malcolm. As nuances de um homem frágil que se esconde atrás de um status recente. Ao mesmo tempo que é extremamente violento, não física, mas verbal e psicologicamente. Realmente um personagem rico e muito bem executado por este ator talentosíssimo. Zendaya está ótima e me convenço cada vez mais de seu talento, mas como falei anteriormente, Marie parece uma versão mais velha de Rue Bennett, então esta similaridade dos papéis a coloca um pouco atrás entre os dois.

Sam Levinson foi extremamente competente e assertivo na elaboração do roteiro, na escolha dos protagonistas e em como desenvolveu a trama. Os picos que há em diversos momentos, servem de alerta para aqueles espectadores que se desvirtuam mais facilmente em um filme como esse. E tais elementos, inseridos nos pontos certos, mostram o total domínio do diretor com sua obra e com sua mensagem, se é que é possível desassociar uma da outra, principalmente, neste caso.

Malcolm & Marie não agrada a todos. Uns acharão superficial, outros, fora de moda. A verdade é que Sam Levinson instiga muitas idéias e reflexões nesta sua mais nova obra. E pelo menos para mim funcionou perfeitamente.