Alice Junior e o Poder da Representatividade Trans

Alice Junior e o Poder da Representatividade Trans

dezembro 22, 2020 0 Por Cid Vasconcellos

Caí neste filme quase que de paraquedas. É bem verdade que o fato de seguirmos o diretor Gil Baroni e o mesmo nos seguir fez com que, mesmo subliminarmente, o título estivesse em minha cabeça. Pois bem, um belo dia, ou melhor, noite, estava procurando algum filme para assistir no catálogo da Netflix e eis que vejo a capa, colorida, de Alice Júnior, e sem pensar duas vezes me joguei nesta experiência bela e leve que esta obra nacional, uma produção aqui de Curitiba/PR, me proporcionou.

Hoje, cada vez mais, vamos sendo atualizados com os novos (velhos) conceitos sobre a diversidade de gênero. O cinema já fala sobre isso a algum tempo e para exemplificar de forma rápida e com filmes que podem ser considerados comerciais e recentes temos A Garota Dinamarquesa (2015) e Meninos Não Choram (1999). Com este último travo uma verdadeira luta para conseguir terminar meu texto e espero que em breve, já considerando o início de 2021, eu o termine e publique, entretanto, apenas na página @clubdofilme, no instagram. Mas voltando aos filmes que já abordaram, de alguma forma, mulheres ou homens trans, é preciso dizer que muitos deles podem até ter uma boa vontade e ser imbuídos de grandes ideias, mas a verdade é que falar sobre a realidade trans escalando atores cis é um erro tal qual o Black Face – quando atores brancos usavam carvão ou tinta preta para pintarem seus corpos para que pudessem, assim, interpretar personagens negros -, injustificável.

Alice Junior é um filme de 2019, que chegou na Netflix neste ano de 2020, e apesar das baixas pretensões, e isto é algo dito pelos próprios realizadores, quando caracterizam esta obra como um “filme de sessão da tarde”, ele vem sendo premiado constantemente nos mais diversos festivais. Mas não se enganem, pois, a leveza e a simplicidade em como a narrativa é construída, bem como a forma despretensiosa como vão sendo incorporados os elementos reativos no drama da vida da protagonista, funcionam como uma grande catapulta de reflexões.

O roteiro, assinado por Luiz Bertazzo, teve grande participação de Anne Mota, atriz que dá vida a protagonista Alice. Anne Mota, com sua vivencia da realidade trans, enriqueceu o texto base deixando-o muito mais crível, mas sem perder a sutileza, uma particularidade que não abandona o filme hora nenhuma. Mas ela faz questão de avisar que Alice Junior não é Anne Mota e vice-versa.

O filme, em um poder de síntese incrível do Baroni, narra a aventura do primeiro beijo de uma jovem trans. Esta caminhada não é apenas por campos floridos e garbosos. Percalços e situações espinhosas acontecem na vida de Alice, mas com a força impressionante que a protagonista demonstra, ela consegue reverter toda e qualquer situação embaraçosa e até mesmo as de violência. É altamente benéfico a não escolha de um tom mais pesado e agressivo como o que temos em Meninos Não Choram. Baroni, junto com Bertazzo e com a própria Anne Mota, concebe um filme muito próximo do real, mas com uma personagem que alimenta esperanças, principalmente, para o público que se vê representado na grande tela.

Sobre a representatividade, esse sim é o grande trunfo deste longa de apenas 1h30min. Anne Mota, uma garota trans e nordestina, passeia em cena como se tivesse uma bagagem enorme de anos atuando. Sua postura durante todo o filme é de quem sabe exatamente a responsabilidade que é, em um ano como 2020, em um país presidido por um sujeito que faz questão de reforçar toda a sua homofobia e, por tabela, sua transfobia em cada entrevista que dá, trazer uma personagem que em nosso cenário real é vítima dia após dia das formas mais truculentas possíveis. Para quem não sabe, o Brasil lidera o ranking em assassinatos de pessoas trans. Tal posto é repetido pela atriz Anne Mota em cada entrevista que dá e, aqui, abro este espaço para também levar esse número da barbárie que, aparentemente, não choca nossa população.

Muito embora o filme dê espaço para as crueldades que o homem, ainda que em sua fase infantil, faça questão de demonstrar, o espectro do filme é muito mais voltado às conquistas e à naturalidade em como o tema deve ser abordado. A personagem Viviane (Thaís Schier) e a sua relação de amizade “por livre e espontânea pressão” com Alice retrata bem essa visão afetuosa em relação ao seu igual que o longa reforça a cada minuto. Mas é o desenvolvimento amoroso, repleto de carinho e afeto, entre Jean Genet (Emmanuel Rosset) e Alice, pai e filha, que mais causa impacto. Tais momentos deixam de lado perguntas como “Por que?”, “Quando?” e “Como?” para simplesmente viver a vida em sua completude, sem espaço para coisas pequenas e desnecessárias. Tal relação é bonita de ver e soubemos, através de relatos, que muitas pessoas trans acabaram sendo beneficiadas através do filme, pois conseguiram o respeito e o amor de seus familiares. Só por esse motivo Alice Junior já merece sua atenção e o total reconhecimento como um instrumento poderoso na luta contra o preconceito.

Mas afinal e o tal primeiro beijo? Antes mesmo de saber que este era o argumento principal do filme, exprimi ao Baroni qual era a minha cena preferida, e o que posso dizer é que vocês vão se surpreender assim como eu, não só por ser inesperado, mas em como a composição se dá perfeitamente. Posição dos corpos, angulação da câmera, trilha sonora em um timing perfeito, um primeiro beijo para nunca esquecer.

Com tudo isso, só me resta vibrar por tudo que Alice Junior tem conquistado não só em território brasileiro como lá fora. E nada mais belo do que ver uma atriz trans, Anne Mota, levando o prêmio de melhor atriz, como aconteceu no Festival de Brasília de 2019.

Voa Alice, voa.