MULAN (2020) – Mais uma vítima da era do Live Action

MULAN (2020) – Mais uma vítima da era do Live Action

dezembro 6, 2020 0 Por Cid Vasconcellos

O live action Mulan (2020), adaptação da animação de 1998, era um filme muito esperado, mesmo em um ano marcado por uma pandemia e cinemas fechados. Primeiro devido ao título que já em 1998 debatia sobre a posição e as responsabilidades da mulher do oriente e que, de certo modo, resvalava no sexo feminino como um todo. E também pelo fato do cinema, mesmo em tempos de covid, causar, nos mais cinéfilos, grandes expectativas em torno de alguns dos títulos marcados para estrear este ano e Mulan era um deles. Contudo ainda que o trailer tenha empolgado muita gente, algumas alterações nesta adaptação desagradaram o grande público e o filme acabou não tendo a repercussão esperada.

A grande verdade é que a idéia destas adaptações em live action, que viraram tendência ao trazer a mesma história das animações com atores de verdade, causa uma verdadeira confusão em nossas mentes. Por um lado, ficamos ansiosos aguardando para ver como os elementos e personagens que mais gostamos na versão original serão realizados na live action e, em contrapartida, esperamos, também, por algo mais atual e que não copie, letra por letra, o roteiro original.

Se em O Rei Leão (2019) – que eu não considero um live-action –  muitos reclamaram por ser um filme igual ao de 1994, apenas recheado de cgi, o que aconteceu com Mulan foi o oposto. A falta do dragão Mushu, a criação de um tom muito mais mesclado na aventura e drama e muitos outros caminhos divergentes, fizeram com que o público torcesse o nariz para este longa.

Esta nova versão de Mulan se apresenta de forma mais madura, é verdade. As suas alterações deixam o ar mais sério e sombrio, tal qual como foi feito em Dumbo (2019), adaptação realizada por Tim Burton. Porém muito da essência do filme original se mantem aqui. Mulan é dotada de respeito e afeto por seu pai, é uma jovem dedicada àquilo que acha ser o certo, e o caminho trilhado do início até o final pela protagonista é recheado de referências, as quais saltam aos olhos de quem tem o filme de 98 ainda na memória.

Mas há um desequilíbrio entre o que ficou e o que foi alterado. A substituição do tagarela dragão Mushu, por exemplo, é realmente um equívoco, ainda mais quando sua saída se dá para a entrada de uma Fênix, com a qual a personagem principal tem pouca ou quase nenhuma interatividade. Tal elemento traz muito menos relevância à história e distancia o público que ansiava pelos alívios cômicos da trama.

Neste longa da diretora Niki Caro, Hua Mulan, diferente da personagem de 1998, tem sua personalidade muito mais forte além de já flertar desde o início com uma vocação para integrar o exército imperial chinês. Mas essa construção da personagem é sutil e não quebra a imagem que se criou quando assistimos à animação pela primeira vez. Pois ainda é visível em Mulan uma certa ingenuidade além de um acanhamento natural que existem em ambos os filmes.

Um dos grandes desafios era justamente a transição do animado para o real e a atuação de Liu Yifei, na pele de Mulan, ainda que tenha sido um pouco criticada, tem bastante similaridade com a animação, além de conseguir nos levar às mesmas emoções que já tínhamos sentido com o filme de 1998. Mas a interprete de Hua Mulan, foi além, ela praticamente fez todas as suas cenas sem uso de dublês (Luta com espadas, cavalgadas e cenas de batalhas). Tal feito eleva a obra e a coloca como responsável direto do sopro de qualidade que este longa teve.

Algo criado nesta produção e que acabou trazendo um pouco mais de profundidade no discurso sobre qual o espaço da mulher foi a personagem Xianniang (Li Gong). Ela acaba sendo uma possível visão do futuro para a própria Mulan, uma vez que também se rebelou contra os costumes e tradições, mas sua conduta ficou marcada pela exclusão e violência. A diretora Caro faz um trabalho consciente, principalmente dentro dessa proposta que já era clara no filme original, com o discurso sobre o papel da mulher em nossa sociedade como um todo, e a liberdade dela ser o que ela quiser. E ainda que o filme se apegue a alguns clichês, repetindo um pouco o que já tínhamos visto em 98, aqui o romance, apesar de existir, é em total segundo plano.

Outro ponto interessante é que ao produzir um filme de batalhas e guerras é comum apelar para os exageros gráficos, mas aqui a essência falou mais alto, e mesmo sendo um filme que expõe muitas cenas de lutas, não se tornou violento. Contudo sua classificação é para maiores de 13 anos já que, inevitavelmente, mas bem disfarçadas, as cenas com algum tipo de violência estão presentes.

O filme Mulan ainda reserva outras surpresas positivas como a trilha sonora, que traz muitas faixas novas, assinadas em sua grande maioria pelo maestro e compositor Harry Gregson-Williams. E, assim como em 98, Christina Aguilera canta uma nova versão de Reflection. Outro destaque é a fotografia que explora ao máximo as locações do filme, que curiosamente não é a China e sim a Nova Zelândia.

No universo da Disney (até o ano 2000), no qual as personagens femininas eram submissas e sempre estavam à espera de um príncipe encantado, Mulan quebrou todo esse simbolismo do sexo frágil. Mas infelizmente, ainda em 2020, é necessário que esta ideia seja reforçada, pois a disparidade quando falamos de direitos e deveres entre homens e mulheres ainda é abissal, mesmo considerando os grandes avanços que já tivemos.

Com um visual atrativo, uma história envolvente e uma protagonista que emana empatia, o filme vale a pena ser assistido. Em termos de produção é de fato muito bem feito. Mas a reflexão que fica é se um filme que se propõe a tão pouco engrandece a obra original, esta notadamente corajosa para seu tempo, ou apenas visa retorno financeiro por justamente se valer da expectativa gerada em seu público.