Esse primeiro longa do diretor Klaus Mitteldorf respira poesia e vagueia pelo mundo analógico de outros tempos, ainda que se passe no tempo presente e isso já diz muito sobre este filme. É desta forma que ele nos mostra que, mesmo nos dias de hoje, é possível pensar em pessoas que permaneceram com seus costumes parados no tempo, o que não é, de forma alguma, algo necessariamente negativo. Prova apenas que as ideologias conseguem resistir ao tsunami da volatilidade de informações.

A nova era em que vivemos, da imersão às tecnologias e de uma vida remota e corriqueira, passa longe dessa obra que, de forma bela, nos prende com sua fotografia – algo que Klaus entende bem – e com uma trilha sonora muito bem concebida e encaixada no ritmo do filme e da protagonista, Ophélia (Bruna Marquezine).

Ophélia é filha de pais separados e não conhece seu pai, Tedesco (Peter Ketnath). Ao saber que ele estaria no Brasil, mais precisamente em Ubatuba/SP, vai em busca de conhecer essa outra parte de sua história. Compartilhando do mesmo gosto que seu pai pela fotografia, a todo tempo vemos Ophelia com sua câmera em mãos, pronta para qualquer registro do tempo que lhe passe a frente. Seus pensamentos, os quais podemos ouvir, traz o ar poético que se estende por todo o filme, mas tal elemento chega a soar exagerado, uma vez que essa regularidade em um tom mais contemplativo e suave carecia de alguns picos de maior energia.

Uma curiosidade que vale ressaltar aqui é que a paixão de Ophelia pelo mar, sendo este o local onde a personagem não só se sente bem como é também o escolhido para ser o caminho pelo qual vai percorrer até o encontro com seu pai, não é mero acaso. Tanto no nome da personagem como nessa ligação com o mar há uma clara relação com a obra de Shakespeare, Hamlet. Sendo inclusive já retratada pelo próprio Klaus, em uma de suas composições, a Morte de Ophélia, datada de 1992.

Bruna Marquezine entrega uma personagem complexa porem de fácil aproximação com o espectador. E esta facilidade se dá justamente pelas escolhas no desenvolvimento de Ophélia. Poucas falas, poucas interações, tudo muito visual. Sabemos que Ophelia sente a dor pela perda de sua avó, contudo seu sofrimento é contido. A relação com sua mãe, Talia (Ondina Clais), é marcada por certo desgaste, mas ainda assim o longa pouco aborda tal conflito. O interesse é conquistar o espectador com as paisagens convidativas e neste ponto o mérito vai todo para Alexandre Ermel, o diretor de Fotografia. A natureza aqui é muito bem explorada, com planos lindíssimos, o que claramente enriquece muito a obra e nos coloca como um observador privilegiado.

Um ponto problemático para mim e algo recorrente, principalmente, no cinema nacional é o uso excessivo e sem propósito da nudez, exclusivamente, feminina. Ainda que a poesia e a arte inspirem muitas das cenas aqui, me causa estranheza o motivo pelo qual mulheres nuas dançam em uma praia deserta sem qualquer sentido para a construção e desenvolvimento da trama. E, assim como esta, outras cenas de nudez feminina brotam na tela, sob um possível pretexto de caracterizar uma época, mas que na verdade está muito mais ligado a um interesse em agradar o seu público masculino. Tal desconforto eu já exprimi em outros textos sobre filmes brasileiros e vejo que aqui esta ferramenta foi utilizada da mesma forma, apenas para buscar um maior alcance.

Mas o principal defeito desta obra é que, em determinado momento, as duas linhas narrativas desenhadas aqui se chocam e acabam provando que não há espaço para o bom desenvolvimento de ambas. A busca de Ophelia por seu pai é muito mais importante e interessante do que qualquer conflito entre os personagens Smutter (Fernando Alves Pinto) e Tedesco. A tentativa de, no meio da trama, unir estes três personagens é desastrosa. Além de considerar forçada a inclusão do personagem Smutter no caminho de Ophélia, este, da forma que foi inserido, não consegue acrescentar nenhuma tensão para os seus momentos, indo de encontro com a proposta desse personagem.

A grande verdade é que não há interesse em contar a história de Tedesco para o espectador. Existe um certo distanciamento para com este personagem e em tudo o que o rodeia. Não à toa a própria composição dele traz obscuridade em seu passado e um isolamento em seu presente. Contudo este afastamento criado para o personagem afeta diretamente ao sentimento do público quando este está à frente de uma ou outra cena mais dramática. Na verdade, tais cenas se tornam, até, enfadonhas.

E se a história de Tedesco já não é interessante, menos ainda é a do personagem Smutter. E aqui a minha concepção de interesse é pautada sobre o que filme nos apresenta em sua primeira meia hora. Temos claramente uma emoção ao perceber a angustia da personagem Ophelia determinada em sua jornada. Qualquer coisa que aconteça lateralmente a este fio da história acaba destoando ou até mesmo prejudicando a trama principal. E, infelizmente, é o que de fato acontece. Essa briga por identidade entre os personagens, Tedesco e Smutter, se mostra como uma grande perda de tempo e não chega a lugar algum.

Contudo outros tantos momentos, na linha narrativa de Ophelia, se mostram muito curiosos e certamente enriquecem a obra, como é o caso da ilha dos albinos. Essas construções de roteiro e direção nos deixam ávidos por saber as histórias por trás daqueles cenários e personagens que nos foram apresentados, mas que tiveram um mínimo de desenvolvimento apenas. Estes, sim, são elementos dentro de uma narrativa que são incorporados de forma qualitativa e acabam nos oferecendo novas experiências ao assisti-las.

Vou Nadar Até Você não se vende como um filme comercial e, de fato, não é. Contudo ainda que sob forte influência de uma visão mais artística e poética, a sua linguagem é fácil o que o torna um filme totalmente acessível.

Ao fim, faltou algo, talvez do próprio roteiro. A morte de Ophélia é tida como uma das mais poéticas da literatura mundial, talvez este peso tenha sido demais para um filme que não soube usar uma reinterpretação a seu favor.

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