Eu estava realmente precisando assistir alguma coisa para distrair minha cabeça. Toda essa história de pandemia, acúmulos de coisas na faculdade e situações completamente fora de controle dentro da minha vida estavam deixando as ideias um pouco bagunçadas demais. Daí tive a excelente iniciativa de embarcar em alguma coisa bem podre, entretenimento puro mesmo, algo em que eu não precisasse gastar nem uma grama de pensamentos. Confesso que precisava de dicas, o cardápio para esses tipos de atrações é muito, mas muito vasto mesmo. Depois de muita consultoria com gente realmente gabaritada em chorumes televisivos, apostei no mercado de The 100. Vi pelo menos a primeira temporada inteira e não era exatamente o que eu estava procurando. Muito extensa e prolongada, tomava muito tempo e as minhas pretensões eram a de um fastfood quase que requentado no microondas. Tipo aquele pedaço de pizza que você acha em um tupperware no fundo da geladeira e não consegue identificar o sabor, mas come mesmo assim. Por questões inconscientes que prefiro não comentar aqui, lembrei de Veronica Mars – aquela sobre uma detetive particular que desvenda casinhos em alguma cidade merda do interior dos eua – e minha paixão adolescente que eu tinha na Kristen Bell. Fui procurar se havia disponível em algum serviço de streaming e fui frustrado. Mas o destino há de ser bom com cristãos honestos e me deu de presente uma serie novinha em folha, sitcom de 20 minutinhos por episódio, disponível na Netflix e com a musa inspiradora (exageros…) Cristina dos sinos: The Good Place.

Sabe quando você começa algo de maneira extremamente despretensiosa e ai, do nada, você se pega apaixonado e não consegue mais parar de pensar naquilo, e vira um pequeno obsessivo falando pra todo mundo o quanto aquela coisa é foda; abre uma conversa no whatsapp com alguém e fica bravo rugindo absurdos como “ Mano, porque você não viu isso ainda?? Você é idiota?” Eu fiquei assim, porem em silencio. Ta, pra pessoas próximas talvez eu tenha recomendado, mas de maneira geral tratei The Good place da maneira mais platônica possível. A velha história do garoto(a) feio(a) se apaixonando pela Garota(o) mais bonita da sala. Ok, eu posso estar sendo extremamente otimista com essa comparação, mas meu sentimento com a série foi esse. Digo que foi, porque lá no meio a gente se tornou apenas bons amigos e, no final, chorei feito uma criança com a despedida dela (Prometi para o Fellypinho que seria menos emocional, mas ta difícil… confesso!).

Fato é que Michel, Eleanor, Chidi, Tahani, Jason e Janet foram meus amigos e deixaram meu coração quentinho durante os 7 dias que os vi em suas desventuras no paraíso. E por mais que o Gabriel cultzeiro esperneie, chore, grite, vomite litros de argumentos dizendo que a série tem mais furos que peneira de garimpeiro no cu de Minas Gerais( e tem), que todas as pretensões filosóficas mais parecem citações daquele livro amarelo da filosofia (e parecem) nada vai mudar o fato que seus 52 episódios cumprem um papel fundamental que há muito não via no entretenimento: Ser simples e entregar o que prometeu. Sem grandes firulas, sem grandes maquinações. E olha que ela tem muito, mas muito espaço para esse tipo de masturbação televisa – um grande abraço para Dark, inclusive.

Isso me fez pensar em como a gente complica as coisas com nossos achismos e fantasias e tudo que envolve situações que exigem certo apelo emocional (leia-se libido). Ir pela via do simples parece roubar no jogo. Quando, na verdade, pode ser uma solução que, alem de facilitar as coisas, nos da abertura para oportunidades que com certeza perderíamos fazendo eternos cálculos sobre “se vale a pena ou não” Eu, certamente, devo ser o campeão mundial de perder boas experiencias por ficar pensando e ponderando mais do que o limite do bom senso. Já perdi amizades assim, namoros, crushs, trabalhos na faculdade, e tantas outras coisas que eu nem devo fazer ideia e é melhor eu parar de pensar porque já está me dando falta de ar. E é engraçado, porque, normalmente, temos a tendência em acreditar em qualquer justificativa que não seja a nossa própria culpa – as que eu acho mais fofas são as que envolvem destino.

A série também trata de forma bem leve um tema muito espinhoso para esses tempos bicudos que estamos vivendo: A morte. Claro, ela sempre foi um tabu – e acho que sempre vai ser – mas por agora o bicho ta pegando! A gripezinha ta matando mais que a Tomorrowland no inverno russo (meu pai tem uma excelente teoria que no final desses festivais eles recolhem corpos com retroescavadeira. Eu sei, é bem sinistro, mas com ele falando fica engraçado). De maneira bem geral e resumida, a lição final é que para se ter vivido uma vida boa, e consequentemente uma morte boa, temos que ter feito o máximo de coisas possíveis ao ponto de chegarmos em um estado de paz, no qual morrer, já não signifique perder a vida. Aqui tem dois pontos interessantes, sendo que a serie aborda apenas um deles. O primeiro é do ponto de vista materialista. Levando-se em conta o olhar filosófico e clinico proposto por Lacan e a atual lógica do capital, é impossível que a gente, um dia, alcance essa via da completude (todos os desejos realizados). Desejo é, antes de mais nada, algo que se reformula, que renasce como uma nova perspectiva de possibilidades frente ao absurdo que é a vida. Se esse é um caminho natural, pense agora se somarmos o fator propaganda. De um Tênis novo até uma religião que te promete o nirvana, sempre vão surgir novos “produtos” que aguçam esse nosso lado consumidor. Claro que Lacan pensava nos desejos subjetivos, aqueles que ocorrem de maneira inconsciente (e são nesses que The Good Place se apoia). Porém, ainda assim, poucas pessoas alcançaram esse nível de perspectiva mental. Talvez alguns monges budistas e uma galera aí que literalmente “zerou” a terapia. – Sim, há relatos de pessoas que conseguiram chegar em um ponto máximo de seu “tratamento”.

Essa ideia é, de certa forma, bastante bonita. Mas, na pratica, não consigo visualizar um cenário onde as pessoas se comportem rumo a esses objetivos. Tudo que foi feito com essa intenção – principalmente como pratica coletiva – deu uma merda danada. Jim Jones e seu Templo do povo, com o maior suicidio coletivo do planeta. Osho e sua cidade megalomaníaca no meio dos Estados Unidos. Charles Manson e sua família assassina. Os Beatles… enfim… Para a série funciona como arco narrativo e vai fazer você pensar em coisas muito interessantes.    

Outros dois pontos fundamentais da série são boas amizades e segundas chances. Uma mistura de “Me diga com quem tu andas que direi quem tu és” com “A maçã podre contamina as saudáveis”. A dialética dessas idéias formam um resultado bastante otimista dentro do roteiro. Companheirismo tem o poder de mudar pensamentos, tornando as amizades um fator primordial para se ter uma vida melhor, menos solitária e egoísta. Empiricamente tive boas experiencias com meus amigos e realmente acredito nessa teoria proposta. Cultivar amizades pode ser trabalhoso e duro as vezes, mas a recompensa sempre vale a pena. Claro, já cai do cavalo inúmeras vezes, já me chateei, mas cada dia mais tendo a acreditar que se você fizer a sua parte, regar todo dia um pouquinho as coisas tendem a dar certo. Um grande beijo aos amigos.

Não sei, acho que The Good Place me deixou piegas. Perdão por isso. Não sei se é uma série que eu recomendaria para todo mundo, ou se é uma série que eu recomendaria, mas no final das contas eu gostei e é isso que importa. Se quiser arriscar, vai lá, espero que você goste. Se não gostar, ta tudo bem também… Já não brigo mais por dragões e princesas.

Compartilha, vai