2019 foi recheado de filmes com temáticas que retratam a diversidade que tanto faltava no cinema Hollywoodiano –  e ainda falta, se levarmos em consideração a quantidade de atores negros protagonizando (ou não) algum filme. Bombshell não é diferente ao retratar as denúncias de assédio dentro da Foxnews, um dos maiores canais de notícias da TV paga nos EUA, e como as mulheres são inseridas dentro do contexto televisivo e de entretenimento. 

Tudo começa quando a apresentadora Gretchen Carlson (NIcole Kidman) perde espaço como apresentadora principal do canal e, logo depois, é demitida por motivos dúbios e não muito claros, que remetiam as suas opiniões que diferiam do corpo editorial conservador da emissora. Contextualmente, as eleições presidenciais estavam acontecendo, Com Donald Trump dando seu show e mostrando ao mundo que a nova onda conservadora estava chegando mais forte que um tsunami. 

Nesse ponto, vale ressaltar o subtexto que o filme tem para a questão do jornalismo enquanto fonte de entretenimento. Na figura da âncora Megyn Kelly (Charlize Theron), o roteiro faz questão de deixar claro que, mais do que a notícia, a audiência precisa ser mantida a qualquer custo, inclusive relativizando a sexualização das apresentadoras e os abusos e desrespeitos que o atual presidente dos EUA cometeu com a jornalista. É muito claro que a preocupação da apresentadora passa necessariamente pela qualidade do show e como a audiência se pareia com o que está acontecendo, mesmo que isso tenha o custo de sua autoimagem ser prejudicada e sua real opinião deixada por debaixo dos panos.Essa ambiguidade a torna a personagem mais complexa do filme, que sabiamente abandona os tons maniqueístas que Hollywood tanto gosta. 

A espetacularização do jornalismo parece ser algo comum, principalmente em grandes mídias. A sociedade do espetáculo, de Guy Debord, já previa a mercantilização de imagens, transformando o jornalismo em produto de entretenimento a fim de manter o tempo de tela da audiência. Aqui no Brasil, a moda atinge os programas de fim de tarde e os de domingo. Sempre sob a figura de um homem conservador carismático, o telespectador é atingido pela banalização da violência e da pobreza. Curiosamente, o nosso presidente da república segue seu ídolo norte americano, atacando e sexualizando os comportamentos de uma jornalista da Folha de São Paulo, mudando o foco de consumo do telespectador, cada vez mais parecido com urubus – com todo respeito a ave, claro.   

A responsável por amarrar a dicotomia que há entre Gretchen Carlson e Megyn Kelly é Kayla Pospisil interpretada por Margot Robbie. Nova dentro da empresa, ela faz o meio termo entre a ambição de conseguir um cargo superior e as opiniões acerca dos assédios que acontecem dentro da corporação. É interessante perceber a dinâmica que ela estabelece com Jess Carr (Kathryn McKinnon), literalmente amarrando a trama para quem assiste, gerando a empatia necessária que talvez a outras protagonistas não consigam.  

Por ser um filme biográfico, ele acaba sendo um tanto burocrático demais, deixando a trama pouco interessante para o formato proposto. O que, no final das contas, é mais do que justo. Seria estranho uma dramatização de um caso tão sério reforçar a espetacularização já exercida pela Fox diante de suas funcionárias. As atuações são realmente boas, refletindo o potencial de um elenco bastante poderoso, porém um tanto desperdiçado. Aposto os 10 reais que estão na minha carteira agora que se não fosse pelo power trio que compõe o filme, a audiência teria sido bem menor ou quase nula. O que é, no mínimo, irônico. Mas, enfim, não se faz cinema sem dinheiro e não se aprova um roteiro sem uma margem mínima de lucro – eles dizem. A sociedade que lute, a gente que faça dinheiro(Assinado: Hollywood) 

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