Contém Spoilers

A Galáxia de Andrômeda está há 2,5 bilhões de anos-luz da Terra, é tanto tempo que, quando a observamos, já não vemos mais a galáxia em sí, e sim apenas um fantasma nostálgico do que ela já fora um dia.
Olhar para as estrelas distantes é observar o passado, passado esse que possui muitas formas e aspectos, materializando uma romantização de um período em que, por pura inocência e ingenuidade, tínhamos esperanças de que tudo poderia ser como sempre sonhamos.
I lost My Body é uma animação francesa dirigida por Jérémy Clapin, que conta a história de Naoufel, um jovem árabe que se apaixona pela melancólica Gabrielle, enquanto tenta encontrar seu caminho em uma nova jornada rumo aos sonhos não realizados de um órfão.

Enquanto estagia em seu novo emprego (aprendiz de carpinteiro), Naoufel se distrai ao tentar matar uma mosca e acaba perdendo sua mão direita, que – logo após “acordar” em um saco plástico no “IML” – inicia sua jornada epopeica para se reunir novamente com seu dono.
Partindo de uma premissa simples porém bem incomum, o drama – Que conta com incríveis atributos de horror – tem um roteiro vivo e orgânico, que usa de elementos tantos estéticos – Como o uso de uma paleta de cores menos saturada para remeter ao passado nostálgico do jovem, e cores vibrantes e hipersaturadas para se referir ao presente – como narrativos, ao se apoiar no uso de elementos fantasiosos para estabelecer uma diegese lisérgica, não deixando dúvidas sob sua proposta inteiramente metafórica.
Em seu livro Essential Teachings of a Tibetan Master,o terton Chagdud Tulku Rinpoche define o sofrimento como produto da ideia de que o único meio de criar felicidade seja controlando as circunstâncias externas da nossa vida, tentando consertar o que nos parece errado ou nos livrar de tudo o que nos incomoda. De tal modo, nos prendemos à um passado, objeto ou desejo, remoendo como tudo poderia ter sido diferente se tivéssemos tomado atitudes diferentes.
Para Naoufel, a morte dos pais é sua culpa. Quando ainda criança, o jovem manifestava muitos desejos extraordinários e se felicitava em uma vida de possibilidades em que tais desejos poderiam ser realizados, especialmente o seu maior, ser pianista. Nota-se que todos os desejos do personagem são estabelecidos à partir da necessidade operacional de sua mão direita, ao passo que esta passa a representar um receptáculo e canalizador de todos esses desejos. Seu pai o queria um astronauta, enquanto por sua vez ele aspirava os talentos da mãe, uma pianista de sucesso. Em todos os cenários, o jovem carregava desejos objetificados em seus distantes momentos no passado, como se naquela janela de tempo, Naoufel brilhasse como uma estrela, cheio de sonhos e expectativas em um mundo com todas as chances a seu favor.
Entretanto, o mundo real é cheio de incertezas e desalentos e, ao perder seus pais, o jovem também perde a chance de realizar todos esses sonhos, sonhos esses que habitam sua mão como um fantasma, uma estrela brilhante de um passado distante. Dessa forma, a mão viva é uma metáfora para os desejos, uma manifestação visual de um conceito abstrato e, que portanto, deve ser encarada como tal. Assim sendo, evocando a figura do fantástico para se desprender das limitações do verossímil, evidenciando uma narrativa lisergicamente lúdica como a melhor saída para dialogar com elementos que só existem no campo das ideias, tornando a experiência de acompanhar uma mão errante, algo quase onírico.

Em sua jornada rumo ao encontro de seu dono, a mão mata – acidentalmente – um pombo, pois ela carrega consigo o mesmo desejo – ingênuo e melancólico – de realizar essas aspirações motivadas pela ligação nostálgica com seu passado, isso pode ser observado ao notar-se que, ao matar o pombo, a mão deixa seus filhotes órfãos, ratificando o sentimento de culpa que essa parte de Naoufel sente em relação a perda dos pais, se colocando como o agente causador de tanto sofrimento.
Assim, voltamos para Chagdud, que traz como solução para o sofrimento, não o controle das circunstâncias externas de nossa vida, mas a reação à essas circunstâncias. Colocando como solução a maneira como nossa mente vivencia a realidade. Tal leitura é claramente corroborada pela figura do pianista visualmente deficiente, que, apesar de sua limitação, lida de forma mais leda com suas dores, nos inserindo a ideia de que de formas diferentes, todo mundo é mutilado, sendo que no momento em que não se pode ter tudo, o que sobra é o que precisa importar, de fato.
Assim sendo, o filme completa sua jornada rumo ao desapego à partir do uso da semiótica como ferramenta de interpretação de todas as suas metáforas. Cortar– acidentalmente – A própria mão, manifesta – poeticamente – uma necessidade inconsciente de se livrar do seu passado, se libertar da sua prisão melancólica, despontada por uma nostalgia que há muito deixou de ser saudável.
A Galáxia de Andrômeda está há 2,5 bilhões de anos-luz daqui, quando a olhamos só vemos um fantasma, pois observar as estrelas é o observar o passado. Para Naoufel (Nome árabe que significa “A Estrela Distante”), a perda da mão representa um desligamento de um passado tão longínquo quanto as estrelas em seu nome, ao passo que, ao se desligar de sua mão, ele também se desliga de todos esses sentimentos, finalmente se libertando da culpa e da dor, mudando sua maneira de vivenciar a realidade, finalmente concluindo sua jornada do desapego.

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