Bojack Horseman (2º Temporada) – Crítica

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Vindo de uma primeira temporada promissora, a continuação do drama de Bojack Horseman (Will Arnett) sofre uma evolução extraordinária em relação a sua antecessora, tanto no formato narrativo quanto nos subtextos abordados.
Enquanto a primeira possuía um formato mais serializado que se escondia atrás de uma capa procedural, nessa aqui o show assume de vez o procedural e, por mais que isso pareça algo negativo, o excelente roteiro somado à uma direção eficaz conseguem extrair todo o desenvolvimento necessário, tanto dos personagens quanto de suas relações e as situações que os envolvem.
A série não passa por nenhuma mudança no aspecto técnico da animação, ainda temos desenhos cartunescos com cores chapadas, texturas limitadíssimas e uma ambientação majoritariamente bidimensional. Tudo isso, porém, não prejudica em nada a sua fluidez, visto que se trata de uma grande brincadeira com – o que seria pelo conceito mimesístico – o espelho de um sitcom do mundo real pela perspectiva do fantástico, dessa forma, usando a construção de mundo e narrativa como um paralelo para dialogar sobre vários assuntos.
Narrativa essa que, em detrimento de priorizar uma reflexão mais profunda acerca dos eventos estabelecidos na série, adota um modos operandi bem particular ao contar uma história. Em Bojack Horseman o antropomorfismo dos animais, assim como a decisão de não arque tipifica-los, carrega uma função singular dentro do tipo de narrativa escolhida.
Apesar de render ótimas piadas situacionais, tal antropomorfismo adentra uma área de estranheza ao observarmos que, determinadas regras entre os animais não se aplicam ao todo. Dessa forma, quebrando a tentativa do espectador de estabelecer uma lógica dentro dos eventos que a série apresenta, explorando e desmontando a mímesis dos personagens e do mundo ao seu redor.

Para Aristóteles em A Arte Poética, a mímesis se refere a uma emulação do real, ou seja, uma representação artística do mundo perceptível para exaltar certas críticas apenas observáveis em um mundo fantástico, o que nos leva diretamente ao formalista russo Viktor Chklovski. O formalista desenvolve – a partir das discussões sobre a mímesis – o conceito de Ostranenie (Embora não possua uma tradução do russo, vamos tratar aqui como ‘desfamiliarização’, ‘singularização’ ou até mesmo o cognato ‘estranhamento´), que estabelece a partir do termo, o efeito que a narrativa literária possui em construir um distanciamento entre o comum e o fantástico, desta forma, estabelecendo que a finalidade artística não é apenas representar um mundo espelhado através de metáforas visuais e narrativas, mas tornar o apreciador da arte tão alheio ao que observa que, este irá se abster de toda a carga emocional e mergulhar em um mundo completamente novo, analisando a obra por uma viés singular, completamente desfamiliarizado em função de toda a estranheza observada.

Ora, Bojack é um homem cavalo que transa com mulheres completamente humanas e, embora a direção expresse isso de forma sútil, ela explora essa bizarrice nas entrelinhas deixando você extremamente desconfortável ao tentar estabelecer uma lógica de espelhamento entre o mundo real e o ficcional, ao passo que, não conseguindo estabelecer tal relação, cai-se diretamente no Ostranenie.
Não limitando sua evolução ao roteiro e ao formato narrativo, aqui vemos, com bem mais destaque, a complexa teia que constrói as dores, medos e individualidades dos personagens.
A série, como já estabelecido antes, usa uma narrativa intermitente para desenvolver aos poucos os subplots importantes para construção de cada personagem. Tal construção passeia por todo o arco principal, que, tem a gravação do tão esperado filme sobre a vida do astro de corridas Secreteriat, sendo usada como plano de fundo para os diversos eventos dentro do arco.
O formato procedural permite tramas auto contidas que desenvolvem o plano de fundo usado pela narrativa para discorrer sobre o plot principal, o drama individual de cada um desses personagens.
Aqui vemos finalmente como Bojack lida com relacionamentos e com suas próprias emoções. A inserção de Wanda (Lisa Kudrow ) como par romântico do cavalo, tem uma função primordial na trama, nos apresentar a um Bojack não apenas apático, mas sutilmente machista e opressor.
Para Horseman, a mulher, tal qual o álcool, é um instrumento usado para se atingir certos níveis de prazer. Nosso protagonista objetifica sua figura, reduzindo-a um meio para um fim. Entretanto, diferente de tantas outras produções (Two and a Half Man, The Big Bang Theory e etc), a série não trata Bojack como o “Cafageste Gente Boa” que merece nosso perdão. Embora esteja sempre pincelando seus Mommy Issues durante toda sua trajetória, em nenhum momento a direção usa isso como desculpa para o comportamento sutilmente misógino de BJ.

Bojack ainda é preso ao passado e tal dificuldade em seguir em frente é justamente o que o faz se apaixonar por Wanda, uma vez que ela, por ter ficado 30 anos em coma, tem a mesma mente de uma época em que ele não havia caído no ostracismo e ruina emocional, criando assim uma conexão perfeita entre dois indivíduos parados no tempo por razões distintas.
Tal relação avança em muito a discussão do plot principal sobre a vida de BJ, uma vez que ele percebe que suas emoções lhe driblaram, o fazendo cair em armadilhas emocionais que ele até então desconhecia, descontruindo de certa forma sua objetificação feminina, ainda assim sem redimi-lo.
Contudo, essa evolução do personagem o leva a tentar racionalizar suas emoções, algo que se mostra falho a partir do momento que ele repete o mesmo erro de maneira diferente. Para Bojack, o presente é um lugar tortuoso e todas as suas reais conquistas ficaram no passado, o que o leva a remoê-lo constantemente na tentativa de recria-lo, ainda que de forma diferente.

Em meio a inúmeros críticas ácidas a pseudo meritocracia dentro de um corporativismo bestial e a fútil vida dos grandes astros de Hollywoo, a temporada também arranja um tempo para focar em temas mais pertinentes como o machismo estrutural em uma sociedade de profissionais majoritariamente masculinos. Para tal, a série resolve se aprofundar na personagem que já vem representando toda essa carga desde a temporada anterior.
Diane (Alison Brie) se vê pressionada pelas cobranças de uma sociedade paternalista que, por sua vez, estabelece determinadas regras de como tais mulheres devem se comportar para serem devidamente aceitas dentro de tal sociedade. Todo o seu arco desenvolve-se, em paralelo a tal plano de fundo, para a construção de sua figura como uma ativista feminista, algo que diretamente afeta  inclusive, a maneira como está lida com seu relacionamento com Mr.Peanubutter, seu namorado.
A série, através de um excelente desenvolvimento de personagens, consegue transitar por temas complexos sem reduzi-los a apenas piadas ligeiras de cunho extremamente sarcástico. No caso de Diane, usando a personagem para falar sobre a culpabilização da vítima em casos de abusos sexuais, sendo a figura do homem sempre higienizada mediante quaisquer acusações.

É possível, sem receio algum, afirmar que a segunda temporada é bem superior a primeira em vários níveis. A mudança narrativa possibilita um maior avanço nas discussões abordadas pela trama, seja ele no plot device de todo o episódio, seja no plano de fundo usado para desenvolver cada personagem. Bojack Horseman é, atualmente, umas das melhores séries adultas animadas que existe.

Bojack Horseman - 2º Temp

9.7

Nota

9.7/10

Nascido em uma longínqua galaxia jamais explorada pelo homem, desde pequeno coleciona quadrinhos, maratona games oitentistas, adora cinema indie e as vezes até se aventura na escrita de contos Scifi. Tudo isso enquanto aguarda sua volta pra casa.