Criada e produzida por Raphael Bob-Waksberg, em agosto de 2014 estreava na Netflix o sitcom animado BoJack Horseman.
Através de piadas ácidas e acertadas, a série satiriza o estilo de vida fútil e banal do ser humano, enquanto brinca com questões existenciais à medida que aborda assuntos como depressão, abuso de drogas e solidão.
O plot gira em torno de um ator fracassado que vive no ostracismo depois de ter sido um ícone da TV nos anos 90. BoJack (Will Arnett), agora um cinquentão rabugento, precisa conseguir algum trabalho para manter seu caro estilo de vida e, desta forma, acaba fechando contrato com uma editora para publicação de uma “autobiografia”. É assim que o nosso astro conhece a promissora Diane Nguyen (Alison Brie), por quem desperta um forte interesse amoroso. Uma ideia pouco original somada a uma execução bastante eficiente.
Com a peculiaridade de usar personagens antropomorfizados para desenvolver relações – por vezes até sexuais – com humanos, esse fator  possui uma relevância particular na construção narrativa da série, você pode conferir mais a respeito na análise da segunda temporada.

Embora conte com um formato similar a maioria dos sitcoms, BoJack Horseman foge – A medida que a trama avança – do desenvolvimento autocontido, ao mudar aos poucos seu formato procedimental para dar lugar a um contorno mais serializado. Assim, a série evita boa parte dos clichês de produções do mesmo gênero ao passo que facilita o processo de desenvolvimento dos personagens.

Por falar em personagens, estes são de longe o ponto mais forte do show. Começando por aquele que dá nome a série, BoJack se parece de início com mais uma das milhares de figuras dramáticas clichês de shows desse tipo; ranzinza, alcoólatra e vítima de sua própria auto piedade. Entretanto, a medida que a série progride vamos conhecendo mais do personagem e entendendo melhor como ele funciona. Tendo sua base moral de caráter altamente duvidoso, vemos no decorrer da história que isso afetou diretamente suas habilidades sociais, o tornando inseguro e altamente dependente da aprovação dos outros, ao passo que para lidar com isso, ele recorre ao saudosismo dos tempos em que tudo parecia estar bem, como quando era um famoso astro da TV há quase 30 anos atrás.

Esses problemas não se limitam apenas ao personagem central, se expandindo entre vários dos coadjuvantes, dando assim uma oportunidade da direção de, além de trabalhar as relações entre BoJack e os amigos ao seu redor, desenvolver em paralelo os arcos de cada um deles. Um exemplo claro é a relação entre ex-astro e seu hóspede, Todd Chavez (Arron Paul), algo que ainda que altamente toxica, acaba se tornando invisível mediante a ingenuidade do jovem rapaz. BJ tem problemas em encarar a solidão e por puro medo e egoísmo, tenta manter todos por perto o máximo de tempo que conseguir, tudo através de amarras artificiais apenas por não conseguir lidar com as mudanças de status quo dos demais.
É inclusive desta forma que somos apresentados ao empolgado e “superficial” Mr.Peanutbutter (Paul F.Tompkins). Enquanto BJ representa o papel do velho fadigado pelas mazelas de uma vida boêmia e saturada de emoções repetidas, Mr.PB se mostra como o jovem feliz e bem humorado que consegue destacar na vida apenas as partes afortunadas e convenientes. Embora esta dicotomia pareça simples, ela é muito mais complexa do que se pode imaginar.


A série trabalha toda a infelicidade de BoJack partindo de uma premissa bem básica; como aqueles que supostamente vivenciaram as melhores experienciais de uma vida cheia de holofotes e atenção, ainda conseguem mergulhar em um mundo cheio de pessimismo e desalento? Um questionamento que remonta ao filosofia de Blaise Pascal que, coloca a infelicidade humana como fruto de sua incapacidade de ficar sozinhos consigo mesmo, o que os levaria à um questionamento existencial transcursando na percepção de sua insignificância perante todo o universo. O que justificaria a busca de BJ por trivialidades rotineiras como álcool e sexo. Entretanto, enquanto a busca do mesmo é fortuita, percebemos em sua antítese, Mr.PB, que talvez este seja até mais consciente do que todos os outros, ao apresenta-lo dentro desse mesmo prisma filosófico, reforçando verbalmente o uso de tais trivialidades como solução para esse eterna busca.

Não obstante a isso, ainda cabe o detalhe de que Peanutbutter não é colocado como figura de contraste à BoJack apenas no campo filosófico, mas também amoroso. O fato de PB namorar Daiane, a única pessoa que parece despertar um real interesse de mudança no cavalo depressivo, sinaliza uma dissonancia ainda mais acentuada à medida que percebemos as nuances morais e comportamentais que contrapõem ambos os personagens. Ora, o positivismo irracional e descomprometido de PB com os desafios do cotidiano o envolvem em uma áurea de otimismo que, do ponto de vista da estética social é hiper produtivo, enquanto toda a dor e amargura do BJ acaba por afastar aqueles em sua esfera de convivência e impossibilitar totalmente o início de novos relacionamentos, retro alimentando todo a carga negativista que ela carrega em seu espectro de relações.
Dessa forma, a série – Através de um excelente texto e grande desempenho dos dubladores – questiona durante todo o seu percurso, as razões que serviram como base para a construção da individualidade dos personagens centrais, razões essas que, no caso de nosso protagonista, se estendem desde sua fase infantil até o termino de sua acalorada juventude. Seja um affair do passado que retorna para abrir margens que salientam a glória de possíveis eventos que nunca aconteceram, seja uma relação fatídica de amizade que definhou em função de atitudes egoístas e circunstanciais.
Tais relações, inclusive, são muito bem exploradas pela ótica da Princesa Carolyn (Amy Sedaris), que por sua vez emerge – Antes de sua notável evolução – como uma simples figura da manifestação física da consciência de BoJack, por vezes, verbalizando ironicamente seus medos e agonias enquanto insere dissonâncias acertadas a respeito de suas decisões. A trajetória de Carolyn, por sua vez, se confunde com a de BJ no momento em que toda sua evolução como figura feminina parte – no momento em que ela percebe – da desconstrução de um relacionamento pueril com o mesmo, remontando sua trajetória à filosofia de Albert Camus e o seu ensaio filosófico sobre o mito de Sisifo. Assim como o personagem grego, Carolyn se vê metaforicamente condenada a repetir eternamente a tarefa de empurrar uma pedra até o topo de uma montanha só para vê-la rolando para baixo novamente, levando-a a repetir todo o processo eternamente. Embora possua noção da real natureza da nocividade de suas relações, a gata acaba repetindo os mesmos erros na expectativa de que, por uma eventualidade, algo saia diferente.


Com dificuldades em assimilar seus próprios sentimentos, BoJack envolve todos nesse mesmo espectro emocional nebuloso e depressivo ao qual retroalimenta, forçando relações insustentáveis e tentando se convencer de que nada está fora do lugar. É assim que se desenvolve sua conexão com seu interesse amoroso, Diane Nguyen. Diferente do ator fracassado, a jovem escritora é bem mais consciente de suas escolhas e ações, o que deveria tornar toda sua trajetória bem mais linear, não fosse pela desconstrução da personagem primorosamente trabalhada a medida que a série avança. Diane não vê em BJ a figura de um parceiro ideal, ora talvez porque ela, em uma ato de autoafirmação prefira alguém mais fácil de controlar, as quais suas ações possam se resumir em uma soma de reações previsíveis e bem desenhadas. Toda a narrativa leva à crer que, de fato, opostos nunca se atraem, conclusão essa muito bem estabelecida através dos diálogos satírica e propositalmente expositivos entre ambos os personagens.
Para Daine, não há um contorno estabelecido que qualifique o tom de cada personalidade, não as abreviando entre bom e ruim, o que nos leva à filosofia existencial de Jean-Paul Sartre. No que tange ao conceito do ser, Sartre afirma que toda a condição humana é definida pelo próprio ser, assim, afirmando que a existência precede a essência, colocando sob os ombros de cada indivíduo toda a responsabilidade por quem ele deve ser assim como sua própria felicidade.
Para BoJack esse é um fardo difícil de carregar, uma vez que, perdido em meio à tantos maremotos emocionais e fadigas sociais, sequer conseguiria ser responsável pelo seu próprio café da manhã.

Embora muito injustiçada pelos haters/outsiders conceituais da internet, a série não abandonou sua qualidade ao cair nas graças da mainstream. Sendo duramente acusada de expor argumentos “simplórios” e “tramas vazias”, toda a crítica se mostra infundada à partir do momento que se faz uma análise mais profunda dos arcos de cada personagem e de todos os conceitos sociais e filosóficos inseridos na narrativa, hora de forma situacional, hora verbalizando tais conceitos através de piadas ácidas e propositalmente expositivas.
BoJack Horseman é uma série que vale a pena ser assistida.

NotaBojack Horseman - 1º Temp

9.2

Nota

9.2/10
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