Jim Carrey administrou sua carreira apostando no que sabia fazer de melhor. Humor físico, misturando sempre uma carga bem grande de non-sense e situações grotescas. Justamente daí que O Máscara – o personagem caricato mais complicado de se adaptar para as telas –  se tornou quase que fundamental dentro do hall de suas atuações. Assim, foi colecionando momentos memoráveis em sua filmografia, nunca deixando de lado suas características mais latentes. O tempo passou e Jim tentou mostrar um outro lado de sua personalidade, algo mais sombrio, um diálogo aberto ao drama. O que vimos foi uma verdadeira montanha russa. Flutuou entre bons momentos ( Brilho eterno de uma mente sem lembranças. Alguns vão lembrar de O show de Truman. Justo. Mas nao sei se ele se prende exclusivamente nesse gênero ) e  momentos bem ruins ( Número 23) o que tornou sua tentativa em algo duvidoso, difícil de apostar dinheiro.

Por circunstâncias da vida, Carrey embarcou em uma onda Taciturna. Se afastou do cinema, colecionou frases polêmicas em programas de TV e foi acusado de participar do suicídio de sua namorada. Um prato cheio para a indústria abutre e uma excelente oportunidade dele, mais uma vez, tentar tirar sua faceta de engraçadão e realocar seu espaço no meio dramático.  Todo palhaço é, no fundo, um pouco triste.

Nessa nova fase, tive a oportunidade de assistir seu documentário na Netflix(Jim e Andy ) e seu último longa(Dark Crimes). De fato temos outro Jim Carrey. Toda a sua energia foi concentrada em um lugar ainda não visto. Coisa de ator que conseguiu a força, a maturidade suficiente para dar um rosto ao Drama. E é nesse ponto que chega em nossas mãos o excelente Kidding.

A série tem um plot bem simples. Conta a história de Jeff Pickles, apresentador de um importante programa infantil que está vivendo sua fase de luto após perder um de seus filhos num acidente de carro. Querendo dar outro rumo para seu show, ele começa a enfrentar seu pai, diretor do império televisivo que se tornou a figura de Pickles. E, a partir daí, toda a construção de seu personagem vai sendo desmontada episódio a episódio.

Jim Carrey caiu como uma luva para interpretar o perturbado Jeff Pickles. Talvez seja sua melhor atuação desde O Mascara. Ele consegue entregar para quem assiste uma mistura muito bem feita de humor, sadismo e drama. Tudo feito de forma orgânica, sem exageros, sem apelo forçado ao físico. O roteiro o ajuda de forma fundamental também. O texto não se deixa prender por estilos, deixando tudo tão suave( e com uma Acidez muito mais relevante que as pretensiosas Rick and Morty e BoJack Horseman) ao ponto de ficarmos desconcertados. Kidding é uma espécie de catarse coletiva, guiada magistralmente por alguém que acostumamos a rir. E essa é a melhor armadilha que poderíamos cair. Jeff Pickles, ao longo de sete episódios, nos educa da maneira mais assustadora possível: nos reduzindo ao nada, levando de forma lenta e sádica ao aniquilamento de uma persona construída para agradar. A série, começa com uma morte real, física, latente e se desenvolve matando, na nossa cara ,uma existência que se enganava e que insistia em se ancorar em valores flutuantes. E tudo em ritmo de  brincadeira…

Agora a pergunta que não quer calar: tudo isso funcionaria com outro ator? Não. A explicação é bem fácil. Toda a estrutura de texto e roteiro acaba se entrelaçando com a história do próprio Jim Carrey. E isso foi fundamental na simbiose entre ator e personagem. Algo que não é exatamente inédito, mas que vale cada segundo de se acompanhar.

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