“O funk não é modismo, é uma necessidade.
é pra calar os gemidos, que gritam nessa cidade.”
-MC Bob Rum, Rap do Silva

Antes de começar a escrever gostaria deixar claro que sou apenas um entusiasta de música… principalmente quando o assunto é sobre gêneros e movimentos dentro desta, então, não necessariamente possuo propriedade para afirmar qualquer coisa sobre o assunto, mas gostaria de propor uma pequena reflexão. Claro que opiniões discordantes são muito bem vindas nos comentários. Mas enfim, o assunto sobre o qual eu quero falar aqui é sobre o funk e como a industria cultural o tomou de assalto.

Meu intuito aqui também não é tratar sobre toda a história do funk, não possuo sequer conhecimento para tal, e sim, quando digo “funk”, não falo sobre o movimento americano encabeçado por nomes como James Brown, prefiro falar aqui sobre o gênero classificado como funk carioca, que, é claro, não se limitou só a isso, que se espalhou em vertentes como funk paulista, melody, ostentação, apologia, putaria e tantos outros.
Mas vamos lá… várias pessoas já conhecem as características do funk “abrasileirado”, seja pelo uso de samples e instrumentos virtuais, batidas aceleradas em um som mais “cru”, e em certos casos usando também de letras escrachadas e algo que podemos classificar como “poluição sonora”, e digo isso sem julgamento de valor, tais características ajudaram o funk a se popularizar como um gênero bastante acessível a quem queira começar a se aventurar e produzir suas músicas nesse estilo, que vão de pessoas usando sintetizadores virtuais e baterias eletrônicas para compor suas melodias, até aquelas que, sem qualquer conhecimento de engenharia de som, apenas recitam versos ao som de bases prontas que ,de tão conhecidas e amplamente utilizadas, até quem não é fã do gênero consegue reproduzir sem dificuldade.
Creio que aí começaram as grandes cisões entre o funk melody e o funk proibidão, um deles já dentro dos moldes e estruturas da música pop, outro mostrava um som mais sujo e, por que não, subversivo.

Subversivo é um termo forte? Sim. Caracterizar o funk como subversivo merece uma discussão em si? Com certeza. Mas antes de nos aprofundarmos nisso, me deixe mudar de assunto rapidinho e falar sobre uma certa escola de pensamento…

A Escola de Frankfurt é bastante conhecida por seus estudos muito referenciados dentro da sociologia, filosofia e comunicação, nomes como Theodor Adorno, Max Horkheimer e Walter Benjamin escreveram vários livros com uma visão crítica sobre arte, cultura e sociedade tendo como base filósofos como Hegel e Marx. Um dos textos mais conhecidos de Adorno e Horkheimer trata sobre o conceito de “Industria Cultural”, que, basicamente, diz como a arte, dentro de um sistema capitalista, passa a ser tratada não como uma forma de expressão “genuína”, mas sim como um produto visando o lucro. Ou seja, qualquer produto de arte, desde músicas à filmes, sejam eruditos ou populares, seriam transformados em produtos para a “massa”, visando assim maior alcance e aceitação e, consequentemente, gerando mais lucro. Durante esse processo, qualquer aspecto mais questionador, reflexivo ou até apreciativo da arte seria diluído para gerar um produto enlatado, seguindo à uma estrutura puramente mercadológica, estrutura essa de linha de produção industrial, “industria cultural”.
Dentro desse modelo de industria cultural, qualquer obra que fugisse de tais padrões, que promovesse um questionamento ou uma quebra do modelo atual seria subversiva, correto?
Sim, porém, a própria subversão é algo que é tragado pela indústria, transformando-a em apenas mais um produto e passando a vendê-la como um “diferencial”, assim, a subversão deixa de ter um caráter revolucionário para se tornar apenas um apelo estético.

À essa altura você já deve imaginar muito bem onde eu quero chegar nesse texto.

Seria chover no molhado dizer que a massificação que vemos hoje do funk, um ritmo que saiu das periferias por pessoas produzindo músicas de uma forma extremante rudimentar e hoje vem tomando cada vez mais gravadoras e rádios é um ótimo exemplo dos efeitos da indústria cultural. Tanto que, o som característico de uma produção precária, hoje já virou um artigo estético, mantido ainda em músicas gravadas em estúdio, o motivo? Isso vende.

Mas nem só de aderir características aparentemente “revolucionárias” e transformá-las em produto é que vive a indústria cultural, há também uma grande adequação dentro do movimento para torná-lo algo mais digerível para as massas. Agora, se me permitem, gostaria de usar alguns poucos exemplos e propor uma pequena reflexão sobre eles…

Primeiro exemplo: MC Daleste.
Não precisa ser um amplo conhecedor da “cena” do funk para notar a grande mudança no conteúdo de suas letras, o garoto que começou sua carreira postando músicas através de uma lan house e estourou graças à hits como “Apologia”, uma música no mínimo “agressiva” tanto na batida quanto na letra, na qual dizia que “matar os polícia é a nossa meta”, próximo do fim da sua carreira músicas muito menos combativas e com caráter bem mais consumista. E, caso não conheça, faça a comparação você mesmo:

Segundo exemplo: MC Livinho
Essa mudança considero um pouco mais sutil, Livinho sempre foi caracterizado por ter um vocal mais trabalhado que outros MC’s, porém a mesma pessoa que atingiu a fama com músicas como “Mulher Kama Sutra” e “Picada fatal”, que usavam base de músicas clássicas (como “In the hall of mountain king” do compositor Edvard Grieg e até “Bibbidi-Bobbidi-Bo” da animação “Cinderela”) para compor a melodia de músicas com letras extremamente sexuais. Dizer que hoje Livinho, que passou a ser conhecido por músicas como “Fazer falta” ainda continua cantando letras do mesmo tom é forçar um pouco a barra. Segue aí os exemplos:

Terceiro exemplo: MC Carol
Ok, acho meio injusto colocar MC Carol junto com os exemplos anteriores, ousaria dizer que ela é um simbolo da luta feminina dentro do funk e, mesmo com o tempo, suas músicas ainda possuem um caráter bastante agressivo e combativo, porém, como disse anteriormente, mesmo essa agressividade foi usada como uma característica, ou melhor, um diferencial do seu produto, não foi a agressividade que MC Carol perdeu, mas sim sua sutileza.
Parece até piada de mau gosto dizer que músicas antigas da MC Carol como “Chama o Samu” ou “Tô usando Crack” eram sutis, mas acompanhe meu raciocínio, essas músicas aparentemente mais escrachadas dela já guardavam uma mensagem crítica, porém escondida em baixo de uma camada de humor absurdo (sim, o leitor pode considerar que nesse momento eu estou forçando a barra, mas acredito que uma letra que diz “A maconha te engorda, usa o crack que é mais light”, não deve ser interpretada literalmente).
Hoje as músicas da MC Carol estão ruins? Não, muito pelo contrário. Porém estão extremamente didáticas, e lembrem-se, também faz parte do processo de massificação tornar um produto mais fácil de ser entendido… poupando assim o exercício de interpretação.

Além desses há vários outros exemplos de “higienização” dentro do funk, não só nas letras, como na estética, basta ver as produções do canal Kondzilla (hoje um dos, senão o maior, produtor, gravador e distribuidor de MC’s).

Também não quero fazer aqui um louvor incondicional à cultura do funk, claro que devemos olhar tais produções, mesmo que genuínas de uma comunidade, com um olhar crítico, principalmente no que diz respeito ao conteúdo machista e objetificador da mulher. Mas seria muito inocente da nossa parte dizer que o fim do funk acabaria com esses problemas, não, creio que as letras extremamente problemáticas de funk apenas escancaram uma característica da sociedade que seria muito mais conveniente manter velada. Afinal, é muito mais fácil não pensar sobre sexualização infantil quando não tem uma criança de 12 anos cantando sobre o tema.

Bom… creio que já falei de mais, fique à vontade para acrescentar qualquer fato ou informação nos comentários, e lembre-se que isso é apenas um artigo de opinião… ou talvez não.

Compartilha, vai