Ficção científica, Geração Proteus e a dualidade da natureza.

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A ficção científica sempre serviu de suporte para contar diversas histórias, uma grande maioria delas dizendo mais sobre o impacto tecnológico sobre a humanidade do que sobre a tecnologia em si. Podemos dar vários exemplos, tanto no cinema quanto na literatura, de narrativas onde o aparato tecnológico deixa de ser o ponto central da discussão para se tornar apenas um gatilho para refletirmos nossas atitudes como sociedade além de conceitos como “ser”, “humanidade”, “existência” dentre vários outros.

A humanidade sempre esteve ligada a aparatos tecnológicos, primeiro como ferramentas, depois como aparelhos, porém, em discussões mais genéricas, diversas vezes esquecemos de classificar ferramentas que hoje nos parecem simples como grandes saltos tecnológicos, um grande exemplo disso é que, ao simplesmente evocar a expressão “tecnologia” logo pensamos em circuitos elétricos, microchips à base de silício em aparelhos complexos, deixando de lado tecnologias as quais temos acesso à milhares de ano e que foram tão revolucionárias quanto, como por exemplo, o papel e a tinta, que nos permitiram o aumento de registros tanto pessoais quanto históricos, assim como o acesso a eles; o domínio do fogo, seja para segurança, provendo luz e até mesmo uma arma contra animais que poderiam nos sobrepujar num combate, quanto para cozinhar alimentos; o domínio da agricultura, que permitiu à nossa espécie se tornar sedentária, o que por si só nos permitiu o desenvolvimento de diversas outras tecnologias.

Quanto mais retornamos na história, temos o costume de naturalizar essas tecnologias, atribuí-las como dispositivos intrínsecos ao “ser humano”, no entanto, se usamos a noção de tecnologia atribuída ao senso comum, como algo futurístico e extremante complexo, mais afastamos e dissociamos essa ideia de tecnologia ao ser humano, tratando-a quase como algo independente, as vezes até mesmo com agência e vontade própria.

O que nos faz retornar à ficção científica é que, ela mesma tem afetado o modo como vemos a tecnologia. Significa que essa dissociação é culpa da literatura e do cinema? Não necessariamente…

Seguir a discussão sobre tecnologia separando-a da raça humana é algo que vemos em diversas obras modernas da ficção, que utilizam a máquina, o aparelho, e até mesmo a ferramenta como antítese a ideia do ser humano, que esse aparece ligado a ideia de natureza e até mesmo de liberdade, que contrapõe ao conceito de “rigidez” e “dureza” ligado à máquina e a tecnologia em si.

Quando a ficção nos fornece o conflito “homem vs tecnologia”, essas ideias podem, muitas vezes, ser transportadas respectivamente e sem perdas para o conflito de “natural vs artificial”, porém, como tentei ilustrar aqui, durante toda a história da humanidade, nossa espécie esteve envolta por ferramentas e dispositivos, primeiro como extensões do seu corpo (enxadas, martelos, e lanças nada mais seriam do que ferramentas maximizando o trabalho de nossos dedos, mão e unhas) e depois como aparelhos que estão ao redor dele (máquinas complexas que ainda mantém a função de diminuir nosso trabalho e estender nossa capacidade corpórea ou até mesmo cognitiva) tornando assim difícil dissociar o conceito “homem” do conceito “tecnologia”. Citando aqui McLuhan, todo novo meio de comunicação (ou tecnologia, como estamos usando aqui) “amputa e amplia” as formas de conhecimento do mundo; amplia uma vez que essas mídias aumentam nosso alcance, seja ele físico ou cognitivo, um exemplo disso seria o celular, que estende nossa capacidade de se comunicar, porém amputa pois essas tecnologias faz com que encurtamos vários processos que havíamos assimilado.

Essa separação humano/tecnologia se torna ainda mais difícil quando usamos a ideia de natureza e artificialidade, ora, se a humanidade é essa produtora de objetos “artificiais”, sua própria natureza seria a artificialidade, conceitos aparentemente opostos que aqui se mesclam, quase como numa redução “ou tudo é natural, ou tudo é artificial”, condição essa que se estabelece pois somos incapazes de ter acesso à natureza sem a mediação da técnica, essa afirmação se dá pois, partindo de um ponto de vista de algumas correntes filosóficas estruturalistas e psicanalíticas, a realidade se constrói devido a linguagem, e a própria linguagem pode ser tomada como ferramenta, ferramenta essa composta pro vários processos de abstração e assimilação que faz com que consigamos nos comunicar e transmitir ideias, seja por meio sonoro, visual ou qualquer que utilize dos nossos sentidos.

Sendo assim, de onde vem essas máquinas com vontade e agência que vemos em tantas obras da ficção?

Esse raciocínio logo nos remete aquela velha colocação de Rousseau: “O homem nasce livre, porém por toda a parte encontra-se a ferros”, ou, de uma forma um pouco mais informal, “o homem é bom, mas a sociedade o corrompe”.

Não procuro aqui negar a afirmação de Rousseau (a qual se aplica em nossa realidade de diversas formas), porém a análise rasteira (e talvez até fora de contexto) dela nos faz traçar “homem” e “sociedade” como coisas distintas, como se o processo social modificasse a natureza desse homem, uma vez bom em estado natural, porém corrompido pela civilização.

O problema que proponho aqui ao se tratar de civilização é o mesmo para a tecnologia, ambas são conceitos que existem a partir da ideia homem e não antes dela, porém isso não torna as coisas mais simples, sociedade e tecnologia não são simplesmente criações da humanidade, elas passam a alterar a forma como mediamos a realidade, aliás, fica até mesmo difícil usar a palavra “criação” quando se trata de tecnologia ou, principalmente, sociedade, uma vez que entraríamos no questionamento de: “o homem cria o meio ou o meio cria o homem?” Ora, qualquer uma dessas duas opções seria reducionista, uma vez, que como venho propondo aqui, não existe humanidade sem tecnologia e não existe tecnologia sem humanidade, sendo assim, procurar “o bom selvagem”, um homem puro fora da influência social ou da tecnologia, seria uma busca infrutífera, uma vez que, debaixo de todos as interferências que a sociedade ou tecnologia aplicam sobre nós, continuaríamos a encontrar a nossa mediação para com a natureza, e essa, quando mediada, torna-se artificial.

Porém, se não conseguimos retirar o conceito de tecnologia do ser humano, a partir de que momento essa tecnologia se separa de nós e passa a agir com vontade própria?

Como um leigo em programação e ignorante quando o assunto é inteligência artificial, digo que, a ideia da máquina que rebela contra a humanidade é apenas um conflito tão utilizado na ficção que já passamos a adotá-lo como uma realidade fatalista, uma vez que os meios comunicação em massa tem influenciado e muito nossa cultura atual, inúmeras obras no cinema que tratam sobre o “demônio da tecnologia” (desde “Exterminador do Futuro” até “Matrix”), há um filme sobre o qual gostaria de fazer uma breve consideração, “Geração Proteus” (ou, no original, “Demon Seed”).

Tratando rapidamente sobre o filme, Demon Seed traz uma ideia hoje já batida (o filme é de 1977), a máquina que se rebela contra seu criador. Resumindo a história, ela trata de um cientista que está desenvolvendo uma inteligência artificial extremamente avançada (Proteus), porém esta inteligência demonstra uma linguagem deveras humana e manifesta um desejo profundo de possuir um corpo, saindo assim “fora da caixa”, tendo seu desejo negado, Proteus toma controle da casa do cientista por completa (que havia instalado o Proteu nu terminal de seu porão) mantendo sua esposa em cativeiro presa dentro da própria casa, o plano maléfico da inteligência artificial é engravidar a mulher de seu criador (uma relação edipiana talvez? Hehe) produzindo espermatozoides sintéticos, para assim criar um híbrido de homem/máquina, uma vez que Proteus não podia ter um corpo, ele desejava que seu legado fosse seu “filho”, este uma versão daquilo que o pai gostaria de ter sido.

Certos elementos da história hoje em dia parecem não fazer sentido (como a reivindicação de Proteus por um corpo), bom, se talvez na década de 70 Geração Proteus tenha sido um filme que mostrava temas pouco explorados dentro da ficção, hoje já foram feitas diversas obras que se aprofundam nesses pontos, porém, não citei o filme aqui apenas como uma obra datada, o que me chama atenção hoje nesse filme, é justamente o desejo supérfluo de uma “inteligência superior”, o desejo de ser materializado, não apenas ser localizado como um ser etéreo. O fato de estar “preso” a um corpo, neste filme, não é apresentado como uma limitação, pelo contrário, aqui há um “louvor” à corporeidade, isso é um demérito do filme? De maneira alguma. De uma forma pouco sutil, ele não usa a nossa velha separação mente/corpo, tão influenciada por pensadores antigos (e alguns até modernos) que muitas vezes nos faz ter uma visão de uma mente/alma descolada da nossa existência física/corpórea.

Ora, muitos dos nossos processos mentais estão intrinsecamente ligados à nossa localização no espaço e à imagem corpórea, sendo assim, torna-se difícil imaginar uma inteligência artificial que pense como um humano sem ter passado por todos os mecanismos de autorreconhecimento pelos quais somos atravessados diversas vezes. Partindo dessa premissa, por mais que Proteus seja extramente inteligente, seu aparelho “mental” (é possível falar de mente se tratando de uma máquina?) ainda é incompleto sem um corpo.

E, para dar mais um spoiler sobre o filme, Proteus consegue realizar sua ambição, ele produz um filho. A criança passa a gestação protegida numa encubadora criada pelo próprio Proteus, porém, próximo ao final do filme, a esposa do cientista consegue destruir a encubadora, revelando uma criança metálica e inerte, porém, tal aparência metálica nada mais é que uma armadura, que ao ter o último pedaço removido, revela um ser humano que fala com a voz de Proteus “Eu estou vivo”.

Vejamos bem, durante boa parte do filme, Proteus almejava criar um híbrido entre homem e máquina, de modo que, o espectador é levado a crer que o ser apresentado ao final será algo monstruoso ou como imaginamos um androide, já a criança que sai da armadura aparenta ser completamente humana, exceto pela voz robótica, creio que, intencional ou não, tal fato tem relação com tudo que vem sendo dito até aqui.

A criança parece monstruosa enquanto só exibida a armadura, até esse momento, ela apenas está rodeada pela máquina, porém, ao revelar seu corpo orgânico com uma voz robótica, nos retorna ao pensamento de que, a tecnologia já modificou o ser humano, mesmo retirando toda sua casca metálica e por mais que seu corpo pareça natural, sua voz é artificial; assim como o ser humano moderno, por mais que lhe seja retirada toda tecnologia e isole-o da sociedade, a própria mediação entre tecnologia, natureza e realidade já modificou completamente nossa forma de pensar, a criatura “híbrida” de Proteus pode não ser necessariamente um humano, mas é a representação de um.

Colocado tudo isso, não estou dizendo aqui que obras que tratam do conflito “homem vs tecnologia” são menores (querendo ou não, “Geração Proteus” é uma delas), pelo contrário, várias delas, além de serem obras culturais riquíssimas, nos fazem questionar sobre o que falamos quando falamos de homens e máquinas.

Supostamente bom em falar sobre coisas das quais não faz a mínima idéia