O Brasil vive um momento em que a justiça nacional não parece seguir os seus próprios protocolos. Seja por interesses políticos, sociais ou de propaganda, criminosos de alto escalão vivem um momento de protagonismo próprio, no qual, mesmo sendo observados por todo o país durante suas pelejas jurídicas, ainda desafiam o privilégio alheio, colocando a prova o poder de se fazer valer os direitos constitucionais. Se serve de consolo, esse não parece ser um problema apenas de terras tupiniquins.

O Terceiro assassinato vai nos apresentar a história de um advogado que pega um caso em andamento sobre um homem que declaradamente matou e ateou fogo em seu chefe durante seu período de condicional. O Réu, cumpria trinta anos de prisão devido a outros dois homicídios envolvendo agiotas. Por isso, agora está sendo julgado e a pena prevista é a de morte, sendo sua única esperança a de conseguir diminuí-la para perpétua.

Um filme que poderia facilmente ser produzido por Hollywood. O ritmo seria melhor, porém não teria o charme filosófico que a cultura oriental apresenta acerca de seu sistema de justiça, seja ele institucionalizado ou praticado com as próprias mãos. E é justamente isso que o torna tão necessário em tempos que nos parece que a impunidade persevera e a justiça não parece ser tão justa assim. Já é sabido – e a cultura pop não me deixa mentir – que o Japão é um dos países em que se leva muito a sério suas questões morais e éticas, sobretudo no que diz respeito a cumprir seu dever, seja ele qual for. Nessa premissa cultural é construída a atmosfera da narrativa, sempre confrontando interesses pessoais com “a verdade” que acaba se mostrando em suas várias versões. Como decidir a vida de alguém, se todas as evidências e motivações sobre um crime parecem ser sempre nubladas e passíveis de interpretações morais?

Um patrão que frauda produtos e suborna o funcionário para que faça o serviço sujo. E essa mesma pessoa, quando chega em casa, abusa da própria filha, enquanto sua esposa finge não ver nada do que está acontecendo com a justificativa de que o dinheiro mantém o sonho da universidade. Nesse contexto de balbúrdia, um ex- presidiário se torna um álibi comum para todas as resoluções de conflito daquela família desajustada, e a lógica aponta todos os seus dedos para culpabilizá-lo…

Será?

O enredo não é conclusivo e isso é mérito dos roteiristas. Em um diálogo final bastante denso, o próprio réu coloca em cheque a opinião quase certeira de seu próprio advogado. O tipo de homem que mata duas vezes, é capaz de matar uma terceira sem um motivo bom para isso.Ou, nas palavras do próprio protagonista “Há pessoas que são apenas recipientes, sem conteúdo algum, incapaz de sentir ou receber alguma coisa”. O sonho de todo diabo é brincar de ser deus. Não se dá a vida, mas consegue facilmente lhe tira-la. A cena final, com o personagem principal no meio de uma literal encruzilhada, ilustra muito bem a posição que nos colocamos a frente da justiça. Estamos perdidos.

O terceiro assassinato

7.5

O terceiro assassinato

7.5/10
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