A literatura – ou a escrita, de maneira geral – tem sido, com certeza, a maior fonte de informação e transmissão de cultura que o ser humano possui. Claro que com o decorrer do tempo outras ferramentas foram ganhando força devido a sua maior sofisticação ou até mesmo alcance. Porém, com os livros, a coisas meio que se potencializam, se tornam mais íntimas, pessoais. A identificação é poderosa,quase que transferencial(psicologicamente falando), além de dar voz a autoridades há muito enterradas. Literatura é conexão com o passado, é uma porta que se abre e, através dela, é possível conhecer novos lugares, pessoas e ideias. Livros mudam e mudaram o mundo e por isso são poderosos.

Fahrenheit 451 mostra muito bem o potencial dos livros em nossas vidas. A aclamada obra faz parte do que chamo de “santíssima trindade das distopias”( 1984, Admirável mundo novo e Fahrenheit 451), e conta a história de uma corporação de bombeiros responsáveis por queimar livros, em uma sociedade viciada em felicidade, consumidora mordaz de entretenimento televisivo – dando grande ênfase a uma mistura de novela e reality show. A alienação se transforma em produto e o conhecimento em praga. É indiscutível a mensagem e o recado que Ray Bradbury quer nos passar: A leitura aliada com a reflexão são armas muito poderosas. Basta tirar isso da população e terá total controle sobre a sociedade. Situações parecidas estão acontecendo no Brasil atual, com as discussões do projeto “Escola sem partido”, mas esse é um tema para um próximo texto.

A reflexão aqui é a ironia presente em adaptar uma obra dessa temática para as telas do cinema. Sinto muito se estou sendo repetitivo – falei um pouco sobre esse tema nos meus dois últimos textos -, mas a maioria dos lançamentos que vi esse ano passaram pela peleja de serem obras adaptadas. O caso de Fahrenheit é a ironia extrema disso tudo, porque o livro trata justamente dessa relação sujeito/entretenimento. Colocar essa história em uma “Tele” é, simbolicamente, fazer exatamente o que os bombeiros distópicos fazem: Botar fogo em tudo, queimando pagina por pagina.

O pior: não é a primeira vez. Nem passei por perto de assistir a versão de 1966, mas tive a estranha experiência de ver a de 2018, produzida pela HBO. Sem muitas firulas técnicas o filme se mostra simples, com o roteiro adaptado para a realidade presente. Sinceramente, não parecia estar vendo um filme e sim um episódio muito longo de Black Mirror. Nada contra a série que deixa um pessoal meio mal da cabeça, mas não é isso que eu esperava de um livro que foi no mínimo revolucionário. Pelo menos o elenco é de qualidade e o roteiro foi bem atualizado, trazendo a tona problemas atuais como internet e FakeNews.

O filme, no final das contas é esquecível, e recomendo que se leia o livro que é bem curtinho.  Assim, você passa longe da atrocidade de cometer uma ironia com um clássico da literatura mundial. Alem, é claro, de entrar em contato com a experiencia de reflexões sobre alienação e legado histórico.         

Fahrenheit 451

5.5

Fahrenheit 451

5.5/10
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