Eu lembro de uma vez que tive que assistir Réquiem for a dream para fazer um trabalho de faculdade sobre efeitos psicológicos de algumas drogas. Não consegui assistir ao filme de uma vez só. Os cortes frenéticos somados a trilha sonora me fizeram embarcar em uma badtrip estranha. Não foi legal. Outra situação, nesses jogos universitários da vida, acabei por consumir alguma substância da qual não me lembro direito e  que me fez ter uma experiência sinestésica das mais interessantes e memoráveis da minha vida. Como se luz, ambiente e música entrassem em perfeita harmonia e apenas isso importasse naquele momento. Foi literalmente depois desse dia que entendi por completo o termo “viagem” para efeitos pós uso de alguma coisa suspeita(apesar de algumas febres também terem causado algo parecido, só que de forma desagradável…).

Neil Gaiman joga nas telas a soma dessas duas experiências e cria o excelente How to Talk to Girls at Parties. O filme não é sobre o uso de drogas, mas lembra e muito uma certa psicodelia natural dos anos 60/70. A história tem de tudo: Adolescentes punks que sonham em ter uma banda e lutar contra o regime opressor do começo dos anos 80; Comédia romântica água com açúcar, que faz adultos de barba na cara sentirem saudade de sua juventude; Tem ficção científica? Tem! Tem extraterrestre? Tem! Tem metáfora sobre hierarquização e liberdade usando sociedades alternativas? Tem! Tem cenas de sexo, que na verdade não é sexo, mas é sexo sim? Tem e é uma das coisas mais legais do filme. Tem Humor? Tem! Tem até a Nicole Kidman numa versão que mistura o Morpheus de Matrix com pitadas de Tina Turner em MadMax. Tem personagem principal, que lembra e muito o criador do roteiro, como em qualquer filme do Woody Allen? Tem também!

A mistura de toda essa parafernalha estética cabe muito bem dentro da proposta de Gaiman. O filme é leve ao mesmo tempo que tenta discutir temas que podem ser assombrosos para qualquer um. A fotografia, nesse sentido, contribui para dizer coisas que o roteiro não se preocupa em falar. A paleta de cores mostra uma Londres fria, parada, dominada por valores conservadores, enquanto que durante os encontros lúdicos tudo fica colorido e movimentado. Uma injeção de ânimo e descontração em meio a difícil fase da adolescência.

Por algum motivo obscuro( muito provavelmente motivado pelo marketing) How to Talk to Girls at Parties foi vendido da maneira errada. Aos que se encontram de maneira casual com o filme, podem achar erroneamente que se trata de mais uma comédia romântica enlatada. Não. Ele surpreende de várias maneiras, se mostrando uma das melhores escolhas cinematográficas que assisti em 2018.

Disclaimer: Esse texto, embora trate em algum momento sobre drogas, não tem a menor intenção de incentivar nenhum uso de substâncias ilícitas. O exemplos foram apenas de caráter ilustrativo que refletem a minha experiência com o filme.”

Esse texto foi escrito ouvindo essa Playlist:

How to Talk to Girls at Partie

7.5

How to Talk to Girls at Partie

7.5/10
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