Imagine a seguinte situação: você é um executivo de uma empresa voltada a entretenimento online, mais especificamente séries e filmes exclusivos. Um dia, chega em sua mesa uma proposta de roteiro que diz respeito ao universo do maior escritor  de fantasia dos últimos trinta ou quarenta anos. Stephen King. Daí você faz uma careta, visto que as adaptações dele são mais presentes na cultura pop do que arroz na dieta do brasileiro. E pouquíssimas que foram para a TV, tiveram alguma relevância. Porém, em um turnover inacreditável eles dizem que será uma história original, usando apenas o universo criado por ele como base para toda uma trama que durará exatamente uma temporada. E a próxima, se a audiência for o suficiente, uma outra história e assim sucessivamente. Tudo isso, claro, endossado por J.J. Abrahams que, consequentemente, convenceu King ( Cá entre nós que convencê-lo não é o problema, já que ele é o maior mercenário do entretenimento mundial. Queria nós que ele tivesse um maior cuidado com o que fazem com suas obras… Lamentamos!). E aí? Investiria seu dinheiro nessa ideia? Eu, particularmente, sim.

E, aparentemente,  não apenas eu tomaria essa decisão. O pessoal da Hulu também, e foi assim que nasceu Castle Rock, série que conta a história de um advogado com um passado envolto por mistérios e que trabalha com presos no corredor da morte. Um dia, recebe uma ligação da cadeia de Shawshank, na qual um garoto (interpretado pelo bizarro Bill Skarsgård) é encontrado enjaulado em um setor abandonado da penitenciária. Um plot simples, sem muitas sofisticações e com uma dose bem divertida de mistério.

É justamente nessa parte que os criadores, Dustin Thomason e Sam Shaw acertam em cheio. A característica principal das obras de Stephen King é o fato de as histórias dialogarem com o popular e o comum. Só depois de isso ser estabelecido é que alguma profundidade é dada aos seus personagens e trama. Castle Rock segue esse mesmo caminho, dando bastante espaço para a sua trama, com pitadas cavalares de coisas a descobrir – usando a famosa tática  do Mystery box – e com a vantagem de não fazer quem a assiste pensar muito. É quase uma novela, só que semanal e sem a produção da rede Globo.

Outro acerto é a série ter um conteúdo original, usando apenas referencias a obras famosas como a própria penitenciaria de  Shawshank, a cidade e todos os contos e acontecimentos que ocorreram ali( A espera de um Milagre, Cujo, Um sonho de Liberdade, etc) e, inclusive, cidades que a rodeiam como a fictícia Derry( Cidade de IT e Insonia).  Isso poupa um possível desgaste entre os fãs mais exigentes e os envolvidos na produção. A maior parte das críticas em adaptações é o fato de, quase em cem por cento dos casos, a experiência audiovisual não ser compatível com a literária. Disso Castle Rock está livre. Outra boa escolha foi o elenco. Bill Skarsgård, Sissy Spacek,  Melanie Lynskey, Scott Glenn, – alguns já participaram de obras do King – recheiam a serie com boas interpretações, deixando um roteiro simples em um produto que, embora tenha carinha de enlatado, seja deglutível ao ponto de não ser tão esquecível assim.

Um ponto desfavorável pode ser o que eu chamarei de “Efeito Stranger Things“. Explico. A serie com as crianças mais simpáticas da televisão contemporânea, foi, salvo engano, a pioneira em tentar resgatar a cultura pop dos anos 80/90 ás nossas telas. E, para isso, acabou por utilizar varias referencias de produções de Stephen King. Foi um sucesso, claro. Nem a readaptação de IT escapou da observação dos mais novos, que tiveram a ousadia de falar que o filme do palhaço macabro estava copiando o estilo da obra da Netflix. Não duvido que Castle Rock sofra do mesmo problema. Embora, tudo seja diferente dentro da nova serie, existe uma alma, uma conexão, uma identidade que lembra em muito produções como Stranger Things. Nada bom dentro de um mercado que pode estar saturado com esse tipo de entretenimento.

No final das contas, a nova produção da Hulu pode ser bastante divertida. O formato de antologia é muito bem vindo para o telespectador menos Hardcore, não tendo que se preocupar com renovações ou cancelamentos. Uma boa aposta para quem esta afim de curtir mistérios e bizarrices. 

 

Castle Rock -

7

Castle Rock

7.0/10
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