Já faz um tempo em que vi o filme O Sacrifício do Cervo Sagrado (The Killing of a Sacred Deer) que, para mim, figura entre os melhores do ano de 2017, tal foi minha empolgação ao ver o filme que procurei outra obras do diretor grego Yorgos Lanthimos, qual foi minha surpresa ao ver que ele também dirigiu outro filme que gostei bastante (além de achar muito interessante e uma crítica social foda digna dos melhores episódios de Black Mirror), O Lagosta, ou The Lobster, de 2015.

E sim, é sobre esse filme que quero falar.

ATENÇÃO PARA POSSÍVEIS SPOILERS, SERIA LEGAL QUE TU FOSSE ASSISTIR O LAGOSTA ANTES DE CONTINUAR LENDO O TEXTO. FICA AQUI O TOQUE

O filme, antes de mais nada, trata sobre uma distopia, porém sem apresentar tecnologias que dominam nossa sociedade, fim de recursos naturais ou adolescentes lutando até a morte, na verdade, O Lagosta é um filme sobre relacionamentos.

Na história, somos apresentados à uma sociedade onde (ok, levem à sério essa premissa) viver sozinho é uma espécie de crime, assim que uma pessoa fica solteira, ela é encaminhada a um hotel onde encontrará seu “par ideal”.

Porém, mais interessante e estranha que a premissa, são as regras e condutas que dizem respeito à essa instituição responsável por formar casais, onde somos apresentados a um ambiente opressor, cheio de regras e costumes dignos da mais estranha seita religiosa, onde, as pessoas que conseguem um parceiro em determinado tempo, são transformados em um animal, daí o título do filme, caso o protagonista não consiga um par dentro do hotel, ele gostaria de ser transformado numa lagosta.

Não pretendo aqui revelar todo o filme, e por mais que tentasse sempre deixaria algo de fora, porém, por diversas vezes me perguntei se, naquele universo, as pessoas eram realmente transformadas em animais ou se isso apenas fazia parte da ideologia daquela sociedade, uma espécie de artifício amedrontador para estimular a sociedade a procurar relacionamentos, mas não é aí que o filme tem seu foco.

Por mais que nesse mundo haja uma instituição disciplinar para garantir matrimônios e dentro dela as pessoas tem que relacionar quase que obrigatoriamente, todas as interações dentro desse hotel são extremamente artificiais, e o mais engraçado é que vão surgindo sociedades subversivas onde há a proibição de relacionamentos, e só dentro dessas sociedades marginais é que vemos relações sinceras no filme.

Mas como disse, não é de meu interesse narrar aqui o filme todo, porém, algo que me deixou com um leve questionamento foi: “Por que uma lagosta?”

Sim, dado a história, a lagosta poderia ser trocado por um animal qualquer que não faria uma grande diferença no roteiro… foi aí que me deparei com uma informação de um filósofo que hoje é conhecido como um dos maiores nomes dentro do existencialismo (área da filosofia que se interessa por perguntas como: qual o valor da existência? Não tomando “existência” apenas pelo fato de existir, mas também por questionar esse fato), Jean-Paul Sartre.

Um fato conhecido na vida de Sartre é que, em meados de 1935, experimentou a mescalina, uma espécie de alucinógeno natural extraído de um tipo específico de cacto, e logo, depois disso, passou a ser perseguido por crustáceos durante alguns dias. Claro, os crustáceos (ora caranguejos, ora lagostas) não passavam de uma alucinação devido ao efeito da droga, mas será que eram “apenas” isso? Apesar de usar aqui a palavra “perseguido”, parece que Sartre possuía uma relação amigável com suas lagostas, dava-lhes bom dia e as mesmas ficavam ao seu redor em silêncio durante suas aulas.

Porém, Lacan não interpreta as lagostas como apenas “alucinações”, como um bom psicanalista, sabe que nossos pensamentos não vem em vão, e que nossos delírios na maioria das vezes são frutos de angústias que em vários casos não conseguimos acessar. É por isso que nosso psicanalista freudiano interpreta os delírios de nosso filósofo existencialista como o resultado de um medo da solidão.

Por isso acho que a lagosta no filme não é um animal escolhido por acaso, ela é usada para representar nosso medo da solidão num mundo onde também tememos ficar presos em relacionamentos.

Durante o filme, os relacionamentos construídos dentro do hotel são puramente baseados em interesses e, para o protagonista, castradores, porém quando o mesmo foge desse ambiente e encontra uma sociedade “anti relacionamentos”, aí ele encontra um amor, podemos tirar disso uma espécie de comportamento de revolta, onde nos interessamos pelo que é proibido, mas acho essa uma redução simplista, porém, talvez o que o filme nos passe seja a simples mensagem de que relacionamentos são bons quando não são impostos, e que também precisamos saber aproveitar a solidão.

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