Independente de onde nascemos ou sob qual cultura cresçamos, uma pergunta persiste cruzando séculos; existe vida além da morte?

Dirigido por Mike Cahill, I Origins (Eu Origens em tradução literal) debate essas e outras questões com bastante sutileza e sagacidade. O filme começa lento, meio arrastado, no entanto não demora muito para engrenar logo de cara nos apresentando Ian Gray, aqui interpretado por Michael Pittvivendo um cientista, mais precisamente um Biólogo Molecular. Ian é fascinado por seu trabalho e pretende de uma vez por todas acabar com o velho debate entre ciência e religião, ele quer descobrir a origem da vida e para isso vale-se de sua carreira altamente promissora e sua equipe de profissionais para levar suas pesquisas adiante.

Ian conta com Karen, vivida por Brit Marling (A outra Terra) que é sua estagiária e futura colega de laboratório e seu braço direito, Kenny, interpretado por Steven Yeun (The Walking Dead). O plot do filme de desenvolve quando o cientista conhece Sofi(Astrid Berges-Frisbey) uma garota religiosa, espontânea e alegre. O cientista se apaixona, casa-se com ela e depois a perde em um trágico acidente. Aqui vemos um claro contraste imposto pelo diretor na narrativa, pois temos um contraponto se formando e se completando de forma sutil e evidente, enquanto Ian é racional e adepto apenas do método científico, sua amada Sofi é emocional e acredita nos mistérios da vida e da espiritualidade. A partir daí o filme se desenvolve nos revelando aos poucos pedaços da trama e alternando sua perspectiva entre ciência e espiritualidade.

A atuação de Marling não é das melhores, de fato o filme não é composto de atores fenomenais, no entanto isso nem de longe atrapalha a narrativa da trama. A Direção de Fotografia fica por conta de Markus Förderer, que faz um trabalho distinto do que o próprio diretor, Mike Cahill fez em A Outra Terra (Another Earth, 2011). Förderer nos mostra solidão e imensidão convencionadas em um único ponto onde temos tons dessaturados em ambientes abertos.

Há quem diga que I Origins é um filme religioso enquanto outros afirmam que trata-se de uma linda obra de arte sobre o amor incondicional, no entanto o que temos aqui não é uma coisa nem outra, nem sequer poderia dizer que são ambas juntas. O filme flerta com a espiritualidade, isso é fato, no entanto esse não é o cerne da questão. Cahill deixa implícito através dos diálogos dos personagens sua intenção em nos apresentar tal película. Embora dotado de falas por vezes tolas e alguns acontecimentos improváveis, o filme cumpre muito bem seu papel que claramente não é mostrar que a ciência é inquestionável ou que a fé seja o caminho definitivo. O cerne da questão é justamente; e se tudo não for exatamente como eu sempre achei que fosse? Pensamento inclusive observado na cena em que o Cientista conversa com Priya Varma em sua visita à Índia.

O filme nos sugere um ponto de vista diferente, talvez pretendendo se vender como imparcial ou apenas tentando guardar o ouro pro final. O que acontece é que independente do propósito o resultado é agradável. É impossível assistir o longa sem envolver religião, por isso ele tem efeitos completamente diferentes que variam de acordo com as ideias e crenças de cada um que o assiste. Para alguém que acredita em um plano espiritual certamente não restará duvidas que tudo o que está acontecendo na trama é real ao passo em que um cético espera pelo momento em que o diretor irá revelar que tudo foi apenas um delírio do protagonista diante da amarga e densa saudade de sua amada.

Embora falhe em alguns quesitos, Cahill não peca em passar sua mensagem através dos seus 106 minutos de filme. Por vezes temos algumas tomadas muito longas, mas que não chegam a quebrar o dinamismo da história. O filme não se restringe a um drama comum, nem tão pouco a uma Ficção Cientifica corriqueira, o que temos aqui é um poema audiovisual sobre as nossas limitações de perspectiva, nossos medos e esperanças.

A cena final é de marejar os olhos, no momento em que o Cientista se vê em um contraste agonizante; acreditar naquilo que o faz bem ou seguir o raciocínio lógico que manteve por toda a vida, logo em seguida tendo a revelação que o deixa ao mesmo tempo assustado pela descoberta, desapontado por suas convicções e feliz por sua conquista.

No final temos um filme de Ficção Científica, mas que fala sobre espiritualidade sim e não deixa a desejar nesse quesito, no mostrando através desta bela metáfora que não sabemos de tudo e talvez nunca venhamos a saber, mas o mais importante é ter a mente aberta pra aprender algo novo toda vez que nos for proposto. Em resumo, I Origins é tudo aquilo em que Deus não está morto fracassou em ser, nos apresentando pontos de vista variados de maneira sutil e fazendo até o maior dos céticos desligar seu senso crítico e apreciar a obra com certo teor de compreensão e tolerância.

Nota

7.1

I Origins

7.1/10
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