O cinema mainstream está cansado de nos oferecer películas pseudo intelectuais que em suma sequer arranham os assuntos que estão ali para se serem abordados, um exemplo caro disso é o recente Lucy, protagonizado pela excelente Scarlett Johansson. No entanto há um mundo lá fora, um mundo onde filmes despretensiosos e incrivelmente envolventes estão te esperando para te surpreender uma, duas, três vezes, e surpreender de novo quando você achou que já tinha tudo sobre controle. Sim, estamos falando do mundo dos filmes realmente Mindfuck.

Primer (2004)

É hoje que nóiz chapa

Primer, além de difícil de ser traduzido é um Scifi complicado, muito complicado. Você cria uma máquina com um proposito, mas ao invés disso você viaja no tempo. No entanto, você não vai para 20 anos no futuro, você apenas verá você mesmo tomando café da manhã alguns momentos depois de ter tomado café da manhã.

Shane Carruth nos entrega um filme muito bem dirigido em termos de roteiro, fotografia, direção e até mesmo nas atuações para um orçamento de R$ 14 mil. O filme não renega seu orçamento, deixando claro que não se trata de uma grande produção e no entanto, compensando a ausência dos maneirismos hollywoodianos com uma narrativa intrigante e um roteiro muito bem amarrado. Confira a sinopse;

‘Dois engenheiros criam um dispositivo que permite que um objeto ou pessoa possa viajar para trás no tempo. Os dois começam a testar o dispositivo para mudar situações de suas próprias vidas. Porém, por conta da ambição, criam problemas e situações que acabam por ameaçar sua existência.’

Todo o filme praticamente gira em torno dos personagens Arron (Shane Carruth) e Abe( David Sullivan) e a medida que eles mergulham nessa confusa história, o espectadores os acompanham não menos aflitos no intuito de entender o que realmente está acontecendo ali. Uma produção que diferente de muitas, respeita o seu intelecto e que não lhe força a deixar sua ‘suspensão de descrença’ desligada durante todo o filme. Carruth não só dirige a obra, como também escreveu o roteiro e atua na mesma. O filme ganhou um prêmio no Festival de Sundance em 2004 e tem sido referência por toda a internet quando o assunto são filmes mindfuck.

Coherence (2013)

coherence

Quando o boy diz: ‘manda foto de agora’

Com um orçamento de menos de R$ 100 mil e cinco noites de gravação, o diretor James Ward Byrkit nos entrega um filme intrigante, envolvente e quase original. Acompanhe a sinopse;

‘Durante um jantar, oito amigos começam a falar sobre a proximidade de um cometa, e sobre os rumores de que a passagem deste corpo celeste é capaz de trazer mudanças graves no comportamento das pessoas. Logo após a discussão, a luz acaba, e estranhos fenômenos começam a acontecer com os convidados, questionando a noção de realidade.’

Coherence ou Coerência em tradução livre, nos oferece um Scifi modesto, intimista e sem os comodismos da grandes produções porém regado a muito suspense e quebra-cabeças. Basicamente acompanhamos a trama da perspectiva da protagonista, a belíssima Emily Baldoni, que aqui interpreta Emily Foxler. Por decisão do diretor todos os atores interpretam personagens com nomes parecidos aos seus. O filme tem como fio condutor alguns dos princípios da mecânica quântica, portanto pode parecer confuso para aqueles menos chegados em assuntos do tipo. No entanto isso não impedi que qualquer um possa vê-lo, apenas o fato de ter algum conhecimento a mais do assunto tratado ali irá proporcionar ao espectador uma experiência mais completa e envolvente junto a trama, uma vez que é impossível você não acompanhar os personagens em suas teorias sobre o que realmente está acontecendo ali por vezes tecendo suas próprias justificativas.

Coerência é tudo o que você busca nesse complexo emaranhado de eventos nos quais o filme se segue, o final aberto pode tanto explodir sua cabeça quanto deixa-lo com aquela sensação de Eu tinha previsto isso. No fim, não há como sintetizar em palavras a experiência de ter assistido ao filme, vale uma conferida imediata, com certeza alguma versão sua de outra realidade já conferiu.

Longoliars (1995)

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Abram as janelas, esse peido tá insuportável

Se você já assistiu O Nevoreiro (The Mist) de 2007, uma adaptação de um dos contos do livro Tripulação de Esqueletos de Stephen King, certamente vai gostar dessa série. Sim, temos aqui uma exceção pois Longoliars não se trata exatamente de um filme, mas sim de uma mini série com dois episódios que adapta a obra homônima do escritor.

Dirigido por Tom Holland e protagonizada por Patricia Wettig, Longoliars, conhecida aqui como Fendas do Tempo narra a história de um grupo de passageiros a bordo de um avião que fica “preso” no ar, sem contato nenhum com torres de transmissão ou visão alguma de qualquer cidade. Veja a sinopse;

‘Em um vôo rotineiro de Los Angeles para Boston algo extraordinário acontece, pois dez passageiros, que dormiam, ao acordarem constatam que são as únicas pessoas no avião. Brian Engle (David Morse), um dos passageiros, é um piloto que está acostumado em lidar com jatos, assim tenta levar a aeronave para algum lugar. Como não consegue se comunicar pelo rádio resolve ir para Bangor, Maine, onde o tráfego aéreo é menos intenso. Isto provoca a ira de Craig Toomy (Bronson Pinchot), um homem de negócios psicótico que tem uma importante reunião em Boston. Em Bangor o grupo vê um aeroporto vazio e nenhum sinal de vida, nem mesmo um eco, mas o pior ainda está por vir.’

A primeira vista parece que você está assistindo a um episódio de A Hora do Arrepio (The Nightmare Room). Os diálogos são “ingênuos”, as tomadas de câmera são “diferentes”, a trilha sonora incomoda e as atuações não são o ponto alto da produção. Por outro lado, King trabalha muito bem seus personagens e para isso todos sabemos que ele tem a mania de isola-los para conseguir extrair o máximo possível de questões existencialistas, dilemas morais e filosóficos. No entanto em Longoliars, King se foca mais no fio condutor da trama, o suspense. De certa forma, isso repercute na adaptação do conto para TV. Por vezes você se pega apreensivo na tentativa de entender, juntamente com aqueles personagens, o que realmente está acontecendo em toda a trama. E como é de praxe no estilo de King, toda vez que você acha que tudo se resolveu lá vem mais um plot twist pra explodir a sua cabeça.

O homem duplicado (Enemy) – 2014

Vô te mandar a real, mermão, só porque é bonitão pensa que num te dou um cacete ?

Quem conhece a obra de Denis Villeneuve já não deve esperar nada tão “mastigado”. Em O homem Duplicado, Villeneuve brinca com a noção de estética do espectador, aliás, o filme inteiro é muito estético. Adaptado de uma obra de José Saramago, aqui o que temos é mais uma trabalho intimista e intrapessoal. O protagonista Adam (Jake Gyllenhaal) retrata o cotidiano de um indivíduo sem muitas perspectivas, até que uma variável em sua vida o faz mudar completamente seu ponto de vista sobre a realidade que o cerca, causando assim eventos dicotômicos que serão o estopim para os acontecimentos que se seguem.

Um pacato professor de história descobre acidentalmente a existência de um sósia seu, um ator, quando assiste a um filme banal. Ele, então, resolve ir atrás de seu duplo, envolvendo sua namorada e a esposa dele, em uma trama de suspense que muda a vida a vida de todos os personagens.

Um filme com uma experiência única, estranha, intrigante e envolvente, odiado por uns e adorado por outros, não há como explicar o que realmente esperar de Enemy, vale uma conferida.

Donnie Darko (2001)

donnie darko

Eita carai, nem tirei as roupa do varal

Se a intenção de Richard Kelly é nos enlouquecer, ele consegue com este filme absurdamente diferente e muito, muito complexo.

Donnie Darko é um daqueles filmes que dividem opinião. Enquanto uns afirmam que não passa de um pseudo cult tentando se vender com “maneirismos baratos” e um roteiro furado, outros gritam que o filme é simplesmente um ícone do cinema cult moderno e que Kelly foi simplesmente genial na elaboração de tal película. O filme conta a história de Donnie Darko, um rapaz esquizofrênico que acaba se safando da morte certa após ser salvo por um coelho gigante (ou um homem vestido de coelho do inferno), a partir daí ele recebe a informação de que o mundo vai acabar em breve e tem anotado em seu braço o tempo que resta para tudo deixar de existir. Confere ai a sinopse:

Donnie (Jake Gyllenhaal) é um jovem brilhante e excêntrico, que cursa o colegial mas despreza a grande maioria dos seus colegas de escola. Donnie tem visões, em especial de um coelho monstruoso o qual apenas ele consegue ver, que o encorajam a realizar brincadeiras destrutivas e humilhantes com quem o cerca. Até que um dia uma de suas visões o atrai para fora de casa e lhe diz que o mundo acabará dentro de um mês. Donnie inicialmente não acredita na profecia, mas momentos depois um avião cai bem no telhado de sua casa, quase matando-o. É quando ele começa a se perguntar qual o fundo de verdade da sua previsão”.

Em termos de estética temos um filme muito bem elaborado, embora seja de 2001 temos o ano de 1988 muito bem retratado, com elementos como estilo de roupa e penteados muito bem apontados no filme. A narrativa não é de todo complexa, porém parece não ser linear, dando margem a infinitas teorias sobre o que realmente acontece no filme, principalmente em relação ao final que causa um pequeno brain storm no espectador, sim…Pequeno, porque se você entender o filme da primeira vez com certeza merece sentar na cadeira de Eistein.

Enfim, chegamos ao fim de nossa lista dos 5 Filmes ‘Mindfuck’ que você deve assistir, em breve teremos aqui a segunda parte, aguarde.

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